Se em essa rua eu sorrisse
Em vez de me perder a olhar a multidão
Caminharia até ao centro de todas as coisas
Em que o tempo insistiu em esquecer
Onde décadas de portas encerradas
Na cidade sem gente ganham um contrato
E os gatos, esses que invadiam os escombros
São agora promotores de solares já sem cores
Deixaria de ver fábricas que escondem efluentes
E o rio que corre cansado sob o peso de nosso conforto
Porque o silêncio das águas estagnadas
É mais forte que a voz de quem o visita
Gritaria nas praças que a hipercultura industrial não nos salvou da névoa
Mesmo com os milhares a fingirem que estancamos a perda
Gritaria pelo fim dos protocolos que deitam fora a dignidade de quem trabalha
Para poupar os trocos de um erário nacional que nunca sobra
Eu não veria um filho sem telha ou boca calada
Mas a farda de de um guarda à procura de uma casa nova
No glorificado edificado bancário adquirido de cruel bastonada
E a dependência de se tentar curar em ruelas onde gente já não passa
E onde o fogo espreita, livre, porque os pastores foram já nem a serra habitam
Se à rua saísse, não veria apenas a multidão
Mas a engrenagem fria de uma política sem património
A desenhar um futuro que tarda a chegar à cidade sem habitante a namorar

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