quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Névoa da Habitação

Imagem gerada por IA em que a prompt é o poema


Se à rua eu saísse, na calma da solidão

Se em essa rua eu sorrisse

Em vez de me perder a olhar a multidão

Caminharia até ao centro de todas as coisas

Em que o tempo insistiu em esquecer


Onde décadas de portas encerradas

Na cidade sem gente ganham um contrato
E os gatos, esses que invadiam os escombros

São agora promotores de solares já sem cores


Deixaria de ver fábricas que escondem efluentes
E o rio que corre cansado sob o peso de nosso conforto
Porque o silêncio das águas estagnadas

É mais forte que a voz de quem o visita


Gritaria nas praças que a hipercultura industrial não nos salvou da névoa
Mesmo com os milhares a fingirem que estancamos a perda
Gritaria pelo fim dos protocolos que deitam fora a dignidade de quem trabalha
Para poupar os trocos de um erário nacional que nunca sobra


Eu não veria um filho sem telha ou boca calada
Mas a farda de de um guarda à procura de uma casa nova

No glorificado edificado bancário adquirido de cruel bastonada
E a dependência de se tentar curar em ruelas onde gente já não passa


E onde o fogo espreita, livre, porque os pastores foram já nem a serra habitam

Se à rua saísse, não veria apenas a multidão
Mas a engrenagem fria de uma política sem património
A desenhar um futuro que tarda a chegar à cidade sem habitante a namorar


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