Pai Nosso

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Rezemos um Pai Nosso
Os mais crentes uma Avé Maria
Que roga por nós pecadores
Exorcizemos os nossos pecados
E esquecemos o resto dos dias

Ajoelhemo-nos em penitência
Recebendo a consagrada hóstia
Entoamos a Aleluia
O cântico abençoado
E esquecemos o resto dos dias

Coloquemos o cilício
Em oferenda de conversão
Pai Nosso perdoa nossas ofensas
Nós a quem nos tem ofendido
E esquecemos o resto dos dias

Sigamos em procissão
Os passos de Jesus Cristo pesarosos
Visitemos os nossos entes mortos
Em campa fria só de ossos
E esquecemos o resto dos dias

Maio



Acordou radiosa esta sexta-feira
Maio verde e florido
Um coro de pássaros em canto de poesia
Esta manhã verdadeira
Não se esconde entre mantos
Tocam os grilos a primaveril sinfonia
Que um abraço é refresco para o dia
E um beijo a minha alegria

Invadem as ruas aromas dos jardins
Dos verdes campos e afins
Trazidos em toques de misteriosas brisas
Da ausência que me faz delirar
Um abraço, um beijo, o conforto da tua presença

Fardo

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Se eu pudesse falar
Dizer
O que vai em mim
Sem que seja pesado fardo
Para ti
Soltar esta vaidade
De estar apaixonado
Libertar
Dessa morfina
Da distância do sonho
Mas que não seja fardo
Para ti
Carrego eu
Só eu
Auxiliado por um receio
Todos os gritos
De desejo
Dizer
Só para mim
Acorrenta-me, em Mosteiro
O silêncio
O delírio da ilusão
E eu combato
Este exército miudinho
Desde as entranhas
Dominadas
E não te tiro de mim
Calado fico
Para ti
O fardo seja meu
Porque assim eu quis 

Trepadeira

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Trepadeira  que entrelaça
numa confusão imperfeita
trepa em vigorosidade apertada
paredes, escaleiras e troncos
chegando ao topo não se detém
entrelaça novo destino
esta trepadeira que entrelaça
e de mim fez novo inquilino

O Búzio e o Mar



Mais um dia
Enumera-se até ao infinito
O tempo inteiro da criação
De um oceano de perder de vista
A viagem que nunca mais termina 

Mais um dia
Em que os passos são nulos sem ideal
Guardados no refúgio de um búzio
Na imensidão do areal
Protegido na sombra de uma arriba

Mais um dia
Em que as gaivotas se ouvem ao longe
Numa algazarra de alegria 
Entretidas pelo tanto alimento do oceano
Distantes da árida arriba

Mais um dia
E já vão sendo muitos
Que neste areal só esse búzio habitado
Encostado na arriba isolado
Solta as gotas salgadas desse oceano

Mais um dia
E não basta
Em que as marés, ora perto, ora longe
Não afagam o triste búzio
Que em desespero de solidão 
Imita o som hipnotizante do mar
Na certeza que alguém o venha pegar. 

Aparência

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Vivemos o Agora que pouco valemos,
senão só uma aparência
concebida em visão de uma cega evidência.
Somos o que tu queres ver,
sem perguntar, sem conhecer,
sem querer saber o que sentimos.
Somos aquilo que não és
e que não aceitas.
Com facilidade rejeitas!
Que somos todos, tu também, Humanidade.

Esta aparência cegamente concebida
por ti, que vives um Agora e espaço só teu,
que te turva a mente, é um forte véu.

Assim, tornamo-nos únicos, raros.
Firmes, em que o horizonte se perde no vasto céu.
Não paramos!
E não te mudamos.

Vê o que queres ver, mesmo sem sentir,
mas não te arrestes na nossa aparência.
Rico, pobre, remediado,
Homossexual, transsexual, heterossexual,
tolos ou ideólogos, talvez elaborados snobs.
Mas somos!
O que construímos, o que sentimos.

Somos a coragem de ser assim, 
mas não por ti.
Essa diferença completa a vasta diversidade,
em que todos somos.
Somos a Humanidade!

Insónia

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Cobertor    lençol    almofada    fronha

                tudo o que me pesa

Mexo    remexo                           alucinação

Tapo-me     destapo-me    tudo pesa    desperto!

Está escuro    sereno    não há monstros     por agora!

                                                         Faltas tu.

Ajeito a almofada    fecho os olhos        regresso

ao revirar da alucinação

Mexo    remexo    alivio o peso    não o pensamento

Está só escuro    manhã distante    por fim adormeço

Acordo                                                          

O Tempo que Esgota o Momento

Photo by Jon Tyson on Unsplash


Aquele momento em que tocamos no interruptor
Acto breve e simples em que se extingue a luz
E os espaços tornam-se em sossego para uma dor
Só então se apercebe que breve foi o dia
Quando as horas se diluíram em segundos
E o tempo que era tanto afinal não bastou
Usurpa-se, então, os momentos que não controlamos
Em que o tempo, sem se entender, é de sua vontade
Esse tempo que nos foge e que ele mesmo afugentou
Esse tempo que faltou, que iludiu
Que nos deixou embalado pelo gesto suave
Um sorriso genuíno e um beijo quente
E ficamos aí, detidos, nessa inebriante vontade
Sem nos apercebermos que o tempo, esse maldito
De sua vontade, incontrolado, esgotava
Então, faltou tempo!
Que agora tanto sobra, que desliga, em acto automático
A luz e carrega a dor do sossego
O tempo que devia ter sido basto
E não só aquele instante momento
O bastardo que não regressa
Mas que se apressa
Sem dó, trazer na memória esse breve tempo
Em acto cruel que nos torna fieis em esperança vã
A querer ter esse novo o tempo


Flôr de Macieira



Flôr pura branca de macieira
Anúncio de Primavera
Amadurecida pelo tempo
Fruto doce suculento de desejo

Agora... Só em Mim



Vi, conheci, vivi
Empoleirado, bem alto, convencido
Passo largo, apressado, atabalhoado
Instante, sentido, emotivo
Por agora só, um momento, só

Que salto, sobressalto, o espanto deste pranto
Em travesseiro, atravessado, deitado
Canto sem encanto, por enquanto é tanto
Calado, abafado, a coberto de cobertor
Encerrado, deitado de lado, que triste fado
Aqui, sem ti, só em mim

Os Pássaros Voam para Sul?

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Disseram-me que os pássaros voam para Sul,
procuram alimento e calor.
A uma distância tão grande e não se perdem,
focados no renovado habitat, voam e voam.
Eu não sei se acredite.
O que vejo são pássaros no céu,
de um lado para o outro como loucos perdidos
mesmo quando o frio aperta
na mais alta cidade da beira.
E assim duvido dessa, quem me disse, certeza.
Eu não tenho sul para onde seguir,
focado no calor de um beijo teu,
como um louco perdido, ando
de um lado para o outro
e não acerto no caminho.
Como é que os pássaros voam tanto?
A mim, nem a brisa ajuda, não indica
se é por acolá o quente sul,
o habitat verde e abundante de abraço teu.
E então não duvido, na minha única certeza,
que os pássaros não voam para sul.

Jogo do Galo

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À volta do adro, tantas vozes a gritar
No jogo do galo
- Avança!
- Um só passo, vai!
- Anda para trás, um passo à esquerda.
Que sobressalto no jogo do galo.
Rodopio nas zonzeiras das intenções
Tantas falsas indicações
E agora?
Em quem confie que me guie?
Com tanta gente a estar de fora
Arranco a venda, largo o cajado
Não alcanço o galaró do prémio - que se lixe!
Enfim, agora livre
Sei para onde ir

O Quarto...Espaço tão Curto, Pequeno, Ausente

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Não entendo a utilidade de uma cadeira
num quarto sem luz, vazio,
sem espaço de sala, nem uma mesa.
É só um corpo, absorto em silêncio
quando a solidão não precisa de companhia.

Não é só um instante!

Agora é que me detenho neste espaço
que me livra de navegar à bolina
e sem esforço, assim descanso
tão atento, introspectivo
no silêncio que nem um surdo traduz
mas percebe que a ausência é morfina
para o serpentear de procurar,
sempre em sobressalto
o que havia de compreender do silêncio
tão incauto, tão prematuro!

Como é espaço sem luz, não tem janela
torna inútil a visão, porque com ela
perco-me
no tremor de te voltar a ver
e sem me deter
correr, correr e correr
Para esses braços que um dia derrubaram o muro,
alargaram este curto quarto, abriram a janela.

Nasci de Madrugada - Chamaram-me Liberdade

Nasci de madrugada e à alvorada, manhã de Sol por mim apaixonada, recebo um abraço encantado Nessa manhã que já cantava e dançava Ofereceram...