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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Avesso na Hora

Imagem criada com a IA Gemini (Google), baseada no poema


Não sou a paz nem sou a guerra
Sou em anseio de ser
O dia a anoitecer
A noite mesclada no dia
A hora longa num quarto
Um quarto que não alcança a hora
Sou viajante sem lugar algum conhecer
Então vejo-te sem te ter
E para te ter tenho que saber ser
Aborrecido num quarto só
Na breve hora 
Tão curta como o quarto
Que me deixe falar sem palavras dizer
De amor com juras e juras de sorrir
Assim de noite 
Onde sobra mais que a hora
Essa hora num quarto
Sem paz sem guerra

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

A Vida num Banco de Jardim©

©Nuno Laginhas

Num banco de jardim
enquanto o frio ainda estava no hemisfério sul
fui habitando
paredes caiadas, outras pintadas
outras de pedra e musgo
o tecto de dois tons, azul céu de manhã
azul escuro pintalgado de luz pela noitinha
e fui morando
numa rua de tantos vizinhos
diga-se de passagem, sisudos
sempre apressados para o trabalho
para o jantar, com algum familiar
ou um convívio mais animado
ao meu jantar estou sempre acompanhado
são convidados vestidos de verde e castanho
às vezes solto um sorriso,
parece Carnaval, um baile de máscaras
mas cada um alimenta-se do que tem
com nutrientes dissolvidos em copo com água
eu, com o que sobra da refeição anterior
e deito-me, deixo-me embalar
nos ritmos compassados
da percussão que vai passando
de manhã desperto com música assobiada
alegre, mais um dia para estar
é o meu banco de jardim
umas vezes sozinho
outras acompanhado de quem vai
até outro lugar, à procura de um jardim

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Mãos Frias©

Foto: Nuno Laginhas©


Ainda de mãos frias
o Inverno junto ao Mondego enregela
e suas mãos entrelaçaram-se
a hora de viajar aproximava-se
só faltava um minuto 
os dedos entrelaçados
foram com força apertados
queriam aquele minuto
como se fosse mais um longo dia
e o frio do Mondego afirmou esse momento
em silêncio tremiam
um minuto bastou para a hipotermia
para enregelar o adeus
nem já o abraço os aquecia
hora de embarque
as mãos, ainda geladas, separaram-se
afastadas
começa a chover
o Inverno, junto ao Mondego, é assim
cruel, distante, frio, cheio de lágrimas

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Um Banco no Jardim ©

Foto: Nuno Laginhas©


O banco do jardim, junto a um lago,
Sente-se só
O lago tem peixes, nadam em grupo,
As árvores vizinhas do lago
Estão ocupadas
Em florir para ficarem belas
E no Verão proporcionar a desejada sombra
A quem passa
O banco do jardim, em morte lenta,
Inutilmente mutilado, sem utilidade
Há quem passe e nem repare
A vida é só de cada uma delas
Como as árvores ocupadas em florir
Se o banco do jardim resistisse
De certeza que não iria sorrir 
Ele está só, sem razão para existir

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Digam-me para sorrir©

Auto-retrato


Digam-me para sorrir
Sem contarem história de encantar
Ou anedota que me faça rir
Sem uma palhaçada ou careta emaranhada
Que disso canso-me todos os dias
Em casa, no trabalho ou a caminhar

E nem se atrevam a dizer que é difícil
Não sorrir

Sem o encanto de um abraço
O doce de um longo beijo
Ou o calor de duas mãos entrelaçadas
Sem uma conversa a dois
Sem uma música que me faça dançar

Assim não é tarefa fácil, pois não?
Mas não chorem agora vocês, senão

Tenho que vos contar uma história de encantar
Uma anedota para se rirem
Ou uma palhaçada com careta emaranhada

E como disse
Disso canso-me todos os dias.

sábado, 23 de setembro de 2023

O Meu Jantar

Gerado por AI


O jantar devia de ser preguiçoso, partilhado
uma vez que o dia corre, foge
embora fechado, sentado
Devia de ser, digo-o bem, em lento canto
mas corre ele também, apressado
Não vá a noite fugir e deixar de sonhar
As garfada são rápidas
e o sustento quase sem ser mastigado
é sorvido como foi o dia, sem prazer

Quem me espera? Ninguém
mas bracejo como a rapidez de um raio
limpo o prato e despejo o copo de vinho
que tenho que sair, rápido
Tomar um café, já sei sossegado
na esplanada nocturna e aguardar
Só não sei muito bem por quem
Passou tudo à correr
e a bem ver ainda nem começou a anoitecer

Não me demoro
Do tempo que deixei fugir de dia
não quero que me escape, regresso
Agora calmo, desiludido
da pressa de jantar e de um café tomar
para, de novo, deixar escapar
esta noite, que devia de ser para sonhar

terça-feira, 14 de março de 2023

O Homem que não chora

Foto de Lukas Rychvalsky na Unsplash


Numa noite fria 
daquelas que já não dá para caçar, 
entre nuvens, as lebres que olhos sonham 
em que as estrelas é que informam 
se é noite a coberto 

Ficou sentado sobre o rio 
numa ponte em ruína onde não passa alguém 
um corpo vazio a boiar 
em caminho para o mar 
sozinho, o sorriso desvanecia 
esperando ver outros que vivem mais além 

Ouve-se o ruído do arreganhado de um cão 
animal acorrentado 
tentando assustar a Ceifeira 
essa criatura de negro que corta a amarra 
e perde-se o barco no rio turbilhão 

Foi vida malandra 
quando trabalhava só colhia parra 
agora, silêncio! 
Que nestes montes já não habita ninguém 

Aproxima-se a foz 
nesta hora buzinadelas e algazarras descansam 
e o Homem continua só 
frio e inchado 
sabe agora, mesmo que o chamem, 
que tudo está terminado 

Nem a noite que sempre perde para o dia 
o vai desviar dessa ida

(Todos os direitos reservados - Nuno Laginhas)

terça-feira, 26 de julho de 2022

Hoje (não para mim)



Teima o dia em despertar
Hoje que não é dia
Nem momento de acordar
E o ontem que não regressa
Que ontem (se não me engano)
As folhas das árvores dançavam
Com os ritmos quentes da brisa de verão
Os pássaros pulavam
de ramo em ramo
Um e outro, sem pressa
Como se fossem brincadeiras de criança
Mas hoje (o dia que não quero)
Tenho as mãos frias
O corpo pesado, imobilizado,
E o olhar fixado
Nas rosas (que tanto gostas)
Que são só pétalas desiludidas
Queimadas
Nesta terra que já não me aquece
Que não me move
Para que o hoje tenha aparecido
E aqui tenha ficado
No ontem perdido
Logo hoje que não devia ter existido

sábado, 23 de julho de 2022

Sexta-feira Sem...


As sextas-feiras são serenas
Silenciosas
Depois das dezoito horas
Ao contrário dos astronauras
da folia e bebida 
Depois das dezoito sossego
Encubro todos os meus desejos
sob mantas
Na penumbra de um sonho
paro o tempo 
Descrevo-te, de novo 
lembrado do quente aconchego 
A minha máquina do tempo
Regresso, corrijo, avanço 
Ver as árvores a florirem
as folhas a caírem 
Alcançar 
A nossa esplanada
de novo livre
Só para nós. 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Amargura



Lágrimas que escorrem entre rugas,
esculpidas nas escarpas dos dias,
são elas as cascatas em Inverno.
A intransigência de uma desilusão
anotada a tinta permanente neste caderno.

A gazela que foge afoita do leão,
em corrida desenfreada de sobrevivência,
nesta savana extensa e estéril
tão longa que não acalma a existência.

Uma cotovia no topo de uma árvore.
de tantos voos e cantos entoados
nas manhãs quentes e alegres,
por fim cai, entre ramos escorre,
e os que reparam são tão poucos.

No fim o que fica registado no palato,
o forte sabor severo de um limão
sem um adocicado estrato
de uma paixão. 

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Corpo Cansado



Dias cansados pela solidão
De sol a sol entalhado no corpo
Esses dias só de enxada na mão
Vem o interlúdio dos dias
O descanso que encharca as veias

Perde-se um beijo e um abraço
Nem um desejo ou grito de prazer
Tudo suspenso num pequeno espaço
Uma só manta sobre o peito
O sonho em veludo negro sem satisfazer

Encerra no silêncio toda a perdida paixão
Em longos e sinuosos caminhos percorridos
Gravados em relevo nessa face ausente
Ficam só as memórias de tempos idos
E as mãos negras de quem vai carregar o caixão

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Abstinência [Morte]



Certo dia acordei cego
- Grito!
De louvor a esta dádiva.
Se não vejo, não sinto,
e deixo-me estar
sem ambicionar
que ver é viver.
Quando de motivos já não abraço
e permito-me agora ao descanso
de tanto que quis em velha vida
Até agora.
Que me embriaguei
com tanta paixão.
Assolam os tremores
de abstinência.
São todas as dores
de terrível ausência.
A privação!
Ver é sentir
e eu que tanto quero,
esse sorriso sentido,
mas...
Estas forças já esgotadas.
Quero ir,
deitar e descansar,
Apagar!
Onde sei que já não posso estar.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

De[]Pressão



No vácuo do pensamento em nós
Atados laços emaranhados
Essas horas áridas em deserto sem oásis
Na exaustão do caminho entre dunas enormes
Perdidos em desencontros dos nossos dias
Desenham-se ilusões em grãos de areia
E perdem-se promessas entoadas
Fica a sede por saciar
Em passos cada vez mais pesados

quinta-feira, 19 de maio de 2022

O Búzio e o Mar



Mais um dia
Enumera-se até ao infinito
O tempo inteiro da criação
De um oceano de perder de vista
A viagem que nunca mais termina 

Mais um dia
Em que os passos são nulos sem ideal
Guardados no refúgio de um búzio
Na imensidão do areal
Protegido na sombra de uma arriba

Mais um dia
Em que as gaivotas se ouvem ao longe
Numa algazarra de alegria 
Entretidas pelo tanto alimento do oceano
Distantes da árida arriba

Mais um dia
E já vão sendo muitos
Que neste areal só esse búzio habitado
Encostado na arriba isolado
Solta as gotas salgadas desse oceano

Mais um dia
E não basta
Em que as marés, ora perto, ora longe
Não afagam o triste búzio
Que em desespero de solidão 
Imita o som hipnotizante do mar
Na certeza que alguém o venha pegar. 

domingo, 1 de maio de 2022

O Quarto...Espaço tão Curto, Pequeno, Ausente

Photo by Priscilla Du Preez on Unsplash


Não entendo a utilidade de uma cadeira
num quarto sem luz, vazio,
sem espaço de sala, nem uma mesa.
É só um corpo, absorto em silêncio
quando a solidão não precisa de companhia.

Não é só um instante!

Agora é que me detenho neste espaço
que me livra de navegar à bolina
e sem esforço, assim descanso
tão atento, introspectivo
no silêncio que nem um surdo traduz
mas percebe que a ausência é morfina
para o serpentear de procurar,
sempre em sobressalto
o que havia de compreender do silêncio
tão incauto, tão prematuro!

Como é espaço sem luz, não tem janela
torna inútil a visão, porque com ela
perco-me
no tremor de te voltar a ver
e sem me deter
correr, correr e correr
Para esses braços que um dia derrubaram o muro,
alargaram este curto quarto, abriram a janela.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

A Muralha... Minha

Photo by Yoal Desurmont on Unsplash


Habito em lugar amuralhado
Velho, antigo, conservado,
de futuro marcado a lento passo,
com ruas e vielas de pouco espaço

Em montras manequins de madeira
de expressão solene reticente
Não falam e nada têm em mente,
há espera de que abram a algibeira

Carreiros feitos de isento arraial
sem atrever de agredir o silêncio
na magnânima esfinge divinal
em receio lampeiro para não acender pavio

Lugar imaleável, isolado
de quem esqueceu que corre o rio
e avistar o que vai além do compadrio
se fixa em café de paleio melado

É lugar curto e amuralhado
com tanto sentimento apertado
Este espaço gravado de granito
onde eu habito

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Talvez me apeteça olhar para a natureza Só olhar e nem um pouco me mexer Ou abrir a boca para palavra dizer Só olhar a natureza No campo, na...

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