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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Entardecer o Dia

Estou encostado à janela do meu quarto
Em vigília da tristeza
Tentando afugentar a descrença
Senti que pedaços do meu corpo cansado
Foram dilacerados em peças
Primeiro, levaram-me os músculos
Depois os ossos
Deixaram o coração para
Arritmadamente, ir  sangrando
Nas lágrimas de tanto vigiar
Se o sorriso, a alegria de festejar
A liberdade
Esta que foi acorrentada 
Em cela de arame farpado
Sim, idealizei a morte
Para a poder resgatar e
Devolvê-la à vida anterior
Mas, de soslaio, foram construindo um muro
Senti, sem hesitar, esta separação
Solidificada na saudade e desejo
De voltar, na rua, a caminhar 

sábado, 23 de julho de 2022

Sexta-feira Sem...


As sextas-feiras são serenas
Silenciosas
Depois das dezoito horas
Ao contrário dos astronauras
da folia e bebida 
Depois das dezoito sossego
Encubro todos os meus desejos
sob mantas
Na penumbra de um sonho
paro o tempo 
Descrevo-te, de novo 
lembrado do quente aconchego 
A minha máquina do tempo
Regresso, corrijo, avanço 
Ver as árvores a florirem
as folhas a caírem 
Alcançar 
A nossa esplanada
de novo livre
Só para nós. 

domingo, 17 de julho de 2022

Recordo-te



Ali em cima
tão longe
onde habitam os anjos
Mais um
asas douradas
aladas
Saudades eternas
habitado
o meu Olimpo 
este palácio 
mil festas haverá
contigo
Um brinde
do néctar rubro
com os Deuses
sozinho não estou
por cá 
Saúdo-te 
ergo o copo
A Ti, meu anjo
mais um. 

domingo, 3 de julho de 2022

Dias Comigo



Queres tomar café comigo?
Estou aqui sozinho.
Nesta esplanada ou em outra mais ao lado. 

Já há poucas mesas livres 

Não interessa a quantidade de amigos
E todos os telefonemas perdidos
A efemeridade dos segundos contados
O novo isolamento auto-medicado

Mesmo com outras mesas ocupadas

Mantenho-me isolado
Imaginando a vida de quem passa
Em apneia sôfrega a olhar a rua

Nem me apercebo de novas saudações 

Tenho como pedido só um café 
O telefone em silêncio 
Na companhia de um cigarro
E na esplanada calado fico. 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Um Café, Na Esplanada



Era só um café, naquela manhã.
Nem frio, nem calor,
era a Primavera nesse dia
trazida pelo suave canto da cotovia.
Se fosse algo mais, ele não teria ido, 
este convite não teria existido.
Há tantos recantos onde se podia refugiar
sem ter que lhe dizer:
"Tão bom que é te amar".
Era só um café, distraído
por um cigarro e riso inquieto,
não mais do que isso, que isso bastava.
Foi nisso que se convenceu,
que a razão ditava:
o forçado sossego artificial.
Essa manhã, só por breve instante, olhar,
que era só contemplar o sorriso,
dela a felicidade em voo de liberdade.
Para ele, percurso penoso, aflito,
feito num instante
empurrado pelo coração:
"Se for já, é só um café, e não me prendo em ilusão".
Dois beijos e um olá, tão fácil que ia ser.
Acender um cigarro: "Tudo bem? Que bom te ver".
Depois? Seria só estar.
E o sorriso dela, a luz naquela Primavera,
acabou por confessar:
"Até um dia, adeus".

domingo, 12 de junho de 2022

Um Dia, Na Esplanada



"Nunca mais te falarei!"
Disse - ele - todo convencido em certeza fácil,
entre um refresco e a sombra agradável
numa esplanada à beira do rio.
Parecia - a ele - um discurso ágil,
adequado ao calor sentido e o momento inevitável,
a facilidade dessas três palavras
tão simples e imediatas da mensagem
que não podiam resultar em engano.
Estava - ele - convencido que tinha essa blindagem.
Cedo apercebeu-se, a bebida aqueceu
e a ausência, prematura, do calor,
esse discurso ágil era mentira indesejada,
arrastada, da esplanada, pelo rio em corrente.
Quando - ele - da sua ausência se fez sentir
e que a razão no engano o fez cair,
nunca mais voltou à esplanada,
nem a esse rio.
Para evitar ouvir:
"Nunca mais te falarei".

segunda-feira, 9 de maio de 2022

O Tempo que Esgota o Momento

Photo by Jon Tyson on Unsplash


Aquele momento em que tocamos no interruptor
Acto breve e simples em que se extingue a luz
E os espaços tornam-se em sossego para uma dor
Só então se apercebe que breve foi o dia
Quando as horas se diluíram em segundos
E o tempo que era tanto afinal não bastou
Usurpa-se, então, os momentos que não controlamos
Em que o tempo, sem se entender, é de sua vontade
Esse tempo que nos foge e que ele mesmo afugentou
Esse tempo que faltou, que iludiu
Que nos deixou embalado pelo gesto suave
Um sorriso genuíno e um beijo quente
E ficamos aí, detidos, nessa inebriante vontade
Sem nos apercebermos que o tempo, esse maldito
De sua vontade, incontrolado, esgotava
Então, faltou tempo!
Que agora tanto sobra, que desliga, em acto automático
A luz e carrega a dor do sossego
O tempo que devia ter sido basto
E não só aquele instante momento
O bastardo que não regressa
Mas que se apressa
Sem dó, trazer na memória esse breve tempo
Em acto cruel que nos torna fieis em esperança vã
A querer ter esse novo o tempo


domingo, 1 de maio de 2022

O Quarto...Espaço tão Curto, Pequeno, Ausente

Photo by Priscilla Du Preez on Unsplash


Não entendo a utilidade de uma cadeira
num quarto sem luz, vazio,
sem espaço de sala, nem uma mesa.
É só um corpo, absorto em silêncio
quando a solidão não precisa de companhia.

Não é só um instante!

Agora é que me detenho neste espaço
que me livra de navegar à bolina
e sem esforço, assim descanso
tão atento, introspectivo
no silêncio que nem um surdo traduz
mas percebe que a ausência é morfina
para o serpentear de procurar,
sempre em sobressalto
o que havia de compreender do silêncio
tão incauto, tão prematuro!

Como é espaço sem luz, não tem janela
torna inútil a visão, porque com ela
perco-me
no tremor de te voltar a ver
e sem me deter
correr, correr e correr
Para esses braços que um dia derrubaram o muro,
alargaram este curto quarto, abriram a janela.

terça-feira, 29 de março de 2022

Ao meu Pai...

Photo by Jr Korpa on Unsplash


Poderia ser mais um dia em silêncio
Fechado em mim, sem sentido
Mas, hoje, especialmente hoje,
Se transforma, em ti, por ti
E desaparece a banalidade
Em um olá ecoando no céu
Na esperança de alcançar em ti
Eu estou aqui contigo no coração
Não desapareceste, transformaste-te
Nesta imensa presença da memória
No sopro e olhar sempre presente

(© Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Breve Carta de Despedida

Photo by Ak Ka on Unsplash


Estou aqui, a olhar a terra
- É tudo isto que tenho para amanhar.
Entretanto, deixo-me levar
pelo som do chilrear
na companhia de uma suave brisa.

Toda esta terra vai ser trabalhada
por mim, mas agora já não,
que já estou a viajar,
levado pela brisa, eis-me a pairar.

Algum dia tinha que ser.
Deixo por cá quem me quis entender
e um dia, esta suave brisa,
neste Novembro que amanhã faz chover
Vai-te envolver.

E também tu farás esta viagem.
Mas não é preciso vires já.
Ainda tens terra para amanhar
e alguém vai ter que a trabalhar.

- Vá, pega na enxada!
Esta terra sozinha não fica cavada,
tens as batatas, as cebolas e as favas
- Porra! Leva o rego a direito.

- É assim mesmo.
Tudo o que semeares vai nascer,
alimentarás a tua família
como eu sempre fiz.

Por agora é tudo.
Sempre que esta terra pisares
vais-me sempre encontrar.

Poema em Destaque

Opinião da Dana

Os sonhos emigraram À boleia de pássaros aventureiros E um jardim, de esplanadas Sem ninguém, florido Impera o silêncio de breves conversas 

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