Nuvens

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Fim de tarde deste Verão,
na calma junto do manto cristalizado
estendi a velha manta de retalhos
e fiquei sossegado, a olhar, deitado
As nuvens a tocarem-se
como um entrelaçar das mãos
em toque suave de sedução
A aproximação dos seus lábios
carícia com calma, com tempo
e as mãos que voltam a tocar
juntas, como curiosa exploração
O beijo que agora foge e se funde
perdido no relevo dos seus peitos
Aumenta a temperatura
esse toque com tempo
Aguarda-se a humidade
sem revolta mas tremendo
As nuvens como duas pessoas apaixonadas
unidas, a provocada extasiada explosão

Florzinha



Que mal tem admirar uma flor
e querer habitar nesse jardim
ver cores de arco-íris compostas
sentir em cada uma o suave odor
de cada pétala que embeleza esse manequim?

Que imagem de mim transportas
quando por mim passas e não falas
enches o peito e andar musculado
e te atreves nesse ar satisfeito 
dirigir duras balas
vil arma carregada de preconceito?

Pois bem um jardim é beleza
é o lindo ventre de todas as mulheres 
o seu corpo de pureza
como ordenados malmequeres
que só desejam ter amor de alguém

E agora que imagem tens de mim
que vil ideia construíste
só porque admiro e não piso
cada flor do jardim? 

Os Outros da Vida



O que faz o hábito de nós 
Seres vigilantes
Acostumados
A uma mesa do café
Ao banco de um jardim
Procuradores de bons costumes
Rigorosos desse firmamento
Presos no mesmo pensamento
Somos a mínima existência
Como câmaras de vigilância
Ofuscados
Nas serras estéreis
E nos campos abandonados
Uma vez ou outra até podemos imaginar
Acabando por habitar
Sem coragem para aventurar
A vida de todos os outros
Os atrevidos
Sem reflexo em nós 

Hoje (não para mim)



Teima o dia em despertar
Hoje que não é dia
Nem momento de acordar
E o ontem que não regressa
Que ontem (se não me engano)
As folhas das árvores dançavam
Com os ritmos quentes da brisa de verão
Os pássaros pulavam
de ramo em ramo
Um e outro, sem pressa
Como se fossem brincadeiras de criança
Mas hoje (o dia que não quero)
Tenho as mãos frias
O corpo pesado, imobilizado,
E o olhar fixado
Nas rosas (que tanto gostas)
Que são só pétalas desiludidas
Queimadas
Nesta terra que já não me aquece
Que não me move
Para que o hoje tenha aparecido
E aqui tenha ficado
No ontem perdido
Logo hoje que não devia ter existido

Na Cidade que Resido



Nesta cidade
Farta, Forte, Fria, Fiel e Formosa
Passa longe um rio
Escondido entre montes e muros
Um rio que farta
Tanto olival, hortas e gado
Crianças que nele refrescam
Sonhos para outros destinos
Montes de fortaleza
E muros de contenção
De toda a criação que esteja para vir
Ou de toda que deseja progredir
Frio de ideias
Cópia de outros que estão longe
Para os lados do Atlântico
O santo que agradece
A fidelidade de quem para ele sorri
Mãos abertas costas curvadas
O rio que lava
Poeiras e detritos
Da tão encapuçada formosura 
É esta cidade guardada
Sob o cajado do pastor das estrelas
Tão bem conservada
E amada no tempo da Ribeirinha

Enxada



Sem-ti
Mãos rudes, calejadas 
Gretadas
A toque do cabo da enxada
Terra seca sem ser regada
Cavar, semear
Amainar
O tempo de germinar 
Colher
Sem enxada em minha mão 
Ou o suor que escorre 
Escreveria a suave toque 
Mas de alma pobre 
Sem ter como alimentar
Este fraco escrever

Sexta-feira Sem...


As sextas-feiras são serenas
Silenciosas
Depois das dezoito horas
Ao contrário dos astronauras
da folia e bebida 
Depois das dezoito sossego
Encubro todos os meus desejos
sob mantas
Na penumbra de um sonho
paro o tempo 
Descrevo-te, de novo 
lembrado do quente aconchego 
A minha máquina do tempo
Regresso, corrijo, avanço 
Ver as árvores a florirem
as folhas a caírem 
Alcançar 
A nossa esplanada
de novo livre
Só para nós. 

Cartas de Amor

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Nem que seja amarrotado ou queimado
o intento de amar e de o querer afirmar
fica mesmo assim o desabafo em folha registado
Disfarçado do medo de falar e protegido do ouvir
E mesmo que se perca nos ermos montes da vida
as cartas de amor são escritas guiadas
por quem reside no coração do remetente
que dita as palavras tão sentidas
Palavras que despertam o doce em mil sabores
ou num amargo salgado de uma futura dor
E disso somos, agora, tão cautelosos
preocupados com tanta hipertensão
que abandonamos de vez, receosos
de escrever a elegante carta de amor

Recordo-te



Ali em cima
tão longe
onde habitam os anjos
Mais um
asas douradas
aladas
Saudades eternas
habitado
o meu Olimpo 
este palácio 
mil festas haverá
contigo
Um brinde
do néctar rubro
com os Deuses
sozinho não estou
por cá 
Saúdo-te 
ergo o copo
A Ti, meu anjo
mais um. 

Noite de Verão



Deito-me, envolto pela tormenta do lençol
como ondas que voltam e revoltam
não param
Estas noites de Verão na fornalha do Inferno 
E... Provavelmente mereço!
Despertar a arder
sem ser este o meu sofrer
Entre o pânico de procurar o ar
Perguntar 
Porque foste, assim tão breve?
Sem aguardar
Agora que os Demónios e Arcanjos bailam
Juntos! 
que o Céu e o Inferno se uniram
As confidências já não são segredo
perdidas no esperneio de voltas e mil voltas
Que nesta tormenta de calor
já não mais posso perguntar 
Porque te foste!

Porra!



Às vezes, muitas vezes grito Porra!
e sem pudor também choro
Não fui germinado em terra negra
nos altos fornos do Diabo
Nem tolhido em terra de celibato
nas galerias ancestrais da castidade

Grito quando me irrito
À revelia do sossego instituído
Do pão desperdiçado, negado a quem tem fome
Do trabalho exagerado exigido ao coitado
Tudo me irrita, Porra!
Quando se tropeça na calçada percorrida
nem um braço, abraço, um apoio
como que sem dinheiro não fosse vida
Quando se fala e ouvem mais as paredes 
essas que não julgam nem apontam o dedo

Também choro quando vejo sofrer 
A dor de uma criança que não tem pão para comer
um brinquedo para rir, umas sapatilhas para correr 
O pai e a mãe, de sol a sol, negros de trabalho exagerado 
não calam o choro da criança 
que nem assim baixam os braços ou perdem a esperança 
Choro e não tenho vergonha 
Quando a caridade é efemeridade para a fama
de quem exige trabalho forçado mal pago
Quando o chicote esvoaça e mata

Grito e choro da diferença imposta
Da traidora falsidade de agradar
Da sonegada liberdade para brilhar
e da falta de oportunidade para estar e ser 
De perder para a justiça do rico
sem árbitro livre ou que não está adormecido
Grito Porra! e escorrem lágrimas
De príncipes e princesas fabricados
instruídos para fugirem da criança que não tem pão 
e um brinquedo dourado na mão 

E Porra!
Choro!
Quando a mãe que adoece e médico não tem
no sorriso belo de ouro engana a dor
na arena de leões é o único gladiador
e de pé, firme, grita: está tudo bem! 

Enchanté (de toi)

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Encantado
Já estive aí
Quando sorriste para mim

Encanta-me outra vez
(só desta vez)
Para voltar a sonhar

Encanta-me
Que mais nada tenho
Senão só o teu sorriso

Encanta-me
(teu encanto tão genuíno)
Que me faz perder o meu sentido

E ser encantado
Não é ser iludido
Como se isso fosse possível nesse teu autêntico jeito

Encanta-me
(só desta vez - sorri mais uma vez para mim)
Só mais uma vez

Digo-te o Adeus que não Quero



Distraí-me quando sorriste
Perdi-me no teu jeito meigo
Nas melodias das tuas aventuras 
E depois de sossegar o entusiasmo 
Fui dominado, sem eu querer, pelo silêncio 
Fechado, só, na esquadria da esplanada 

E tudo o que queria era a ti
Entre uma aventura ou um só passeio
Perdi-me
No meu desejo altaneiro 
Entre estradas e caminhos 
Todas as curvas e contra curvas 
Nos cruzamentos das ruas

Dos encontros aos desencontros 
Dos segundos que ficaram dias
Nesta esplanada fechada
Deixei-te ir
Em meu envergonhado sorrir
Aos teus lugares distantes
Para tu seres feliz. 

Prazer

Autor: desconhecido


O degelo
A lenta fusão 
Do estio prazer e um olhar revirado
A emoção torneada
O demônio exorcizado
Soa a corneta do Anjo carnal
Na torre da cúpula dourada
A volúpia da pele nua
Excitada
O suor em toque
No veludo humedecido
Suado
Aberta a arca dos segredos
Atrevidos
Sob as estrelas envergonhadas
E sarcedotisas indignadas
O silêncio rasgado
No atlântido jardim suspenso
A pureza perdida
O paraíso encontrado

Velho Lobo

Photo by Tom Pottiger on Unsplash


Ouve-se o uivo do velho lobo na serra
Calaram-se as corujas
As fuinhas resguardam-se nas tocas
É o chamamento
O corpo do velho repousado
Iluminado da fenestra pelo luar
O canto da cegonha ouve-se pela manhã

O velho lobo recolhido pela alcateia
No sopé da montanha humedecido
Do choro das nuvens deste Inverno
Pairam os cristais divinais da pureza
E afastadas as andorinhas e os melros
É a renovação da alcateia
O silêncio do uivo do velho lobo
Inicia-se uma nova vida

Soltar



Quero descalçar-me!
Tirar estes rudes sapatos
(gastos)
Livrar-me deste sufoco
Libertar-me!
Rasgar a camisa
(de força)
E refrescar-me!
Logo de manhã pela fresca
sentir nos pés a erva molhada
a terra macia
Soltar-me!
Sem mais, sem olhar atrás
e correr
Descalço, despido
da força de te amar
(esta intensidade tão atada)
Procurar novos destinos
desatar os nós apertados
libertar o coração no peito cingido
E um dia voltar
afirmando
Agora, descalço, sou feliz!

Mundo Suspenso

Photo by Yukon Haughton on Unsplash


Neste momento o meu pequeno espaço
parece o mundo
e tanta casa devastada
bombardeada
e eu livre, divertindo-me
Escola encerradas
crianças encarceradas
no tormento da explosão
não há tempo para a brincadeira
perdeu-se a jovial ilusão
Nem pão, vinho ou água
ou cama para repousar
e eu livre, tenho tempo para sonhar
Amigos perdidos
amantes desaparecidos
entre bombas e mísseis
procuram a liberdade
No curto espaço refugiado
a morte é visita e companheira
e eu no meu mundo desencarcerado
abraço a felicidade, canto e danço

Beira Rio



Sentei-me à beira rio
com o mar ainda distante
Crianças e pais em terna algazarra
É o Verão na serra
para quem o mar ainda não está
nos dias remediados
ao alcance
Água fresca do rio ainda jovem
e as crianças que correm
Vai um pulo, um mergulho
É um sossego
que o rio não tem ondas
e o mar, ainda distante
deixa os pais na sombra dos sonhos
Talvez uma viagem ou excursão
quando da horta não é preciso tratar
é toda uma vida, sempre a trabalhar
E à beira rio contemplei
todas as conversas sem delírio
o som apaziguador do rio que corre
que um dia encontrará
esse mar distante

Dias Comigo



Queres tomar café comigo?
Estou aqui sozinho.
Nesta esplanada ou em outra mais ao lado. 

Já há poucas mesas livres 

Não interessa a quantidade de amigos
E todos os telefonemas perdidos
A efemeridade dos segundos contados
O novo isolamento auto-medicado

Mesmo com outras mesas ocupadas

Mantenho-me isolado
Imaginando a vida de quem passa
Em apneia sôfrega a olhar a rua

Nem me apercebo de novas saudações 

Tenho como pedido só um café 
O telefone em silêncio 
Na companhia de um cigarro
E na esplanada calado fico. 

Amor... Viver

Photo by Matthew Henry on Unsplash


O Amor
Atrevido despudor
Fantasia de nudez
Embriagado
Por Vénus e Baco
É salteador
Saltador
Assaltador
E o que mais pode acabar
Em dor
É campo despido
Desprotegido
Incerto e choroso
Como dias de Abril
É ougado
Insaciado
Com todo o início apressado
É vento, ventania
Que embala e abala
Mas é o Amor!
Destemido
Sincero e nada arrependido
E sem ele não sei viver.

Amargura



Lágrimas que escorrem entre rugas,
esculpidas nas escarpas dos dias,
são elas as cascatas em Inverno.
A intransigência de uma desilusão
anotada a tinta permanente neste caderno.

A gazela que foge afoita do leão,
em corrida desenfreada de sobrevivência,
nesta savana extensa e estéril
tão longa que não acalma a existência.

Uma cotovia no topo de uma árvore.
de tantos voos e cantos entoados
nas manhãs quentes e alegres,
por fim cai, entre ramos escorre,
e os que reparam são tão poucos.

No fim o que fica registado no palato,
o forte sabor severo de um limão
sem um adocicado estrato
de uma paixão. 

Nasci de Madrugada - Chamaram-me Liberdade

Nasci de madrugada e à alvorada, manhã de Sol por mim apaixonada, recebo um abraço encantado Nessa manhã que já cantava e dançava Ofereceram...