Sonhar-te

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Permite-me estar
Refrescar a mente
Quando as noites são quentes
Enquanto o corpo repousa
Trazer o aconchego
Da erva fresca sob a oliveira
E sem imaginar
Apontar
Eis a constelação
Que guarda e aguarda
Todos os segredos
Os encantos e desencantos
Enquanto a mente refresca
Se liberta
Entre os ramos da oliveira
E em mim sonhar-te
Enquanto a noite ainda é quente
E a mente não desaponta
Acreditar
Que cada estrela
É o amor que não desvanece
Nesta cama de erva fresca
Encerrar os dias
Elevá-los ao céu
Para mais uma constelação surgir
A intensidade
Do teu corpo repousar
Num sonho meu
Sentir o teu calor
Quando me tocaste
E ao ouvido segredaste
Desejo-te
Então, permite-me... Sonhar-te

Um Beijo Lento

Escultura de Auguste Rodin (1892)


Dar um beijo
um beijo lento
com tempo
o beijo que arrepia
E mil beijos em ti
exploradores
quentes e lentos
e o momento torna-se infinito
Mil beijos não bastam
no arrepio que reclama
o toque
a língua que desliza
Sentir cada milímetro
o teu relevo suado
olhos fechados
para descobrir
Ouvir
teus gemidos de calor
dois corpos ajustados
Abraçar
afagar os cabelos escorridos
teu corpo torcido
Um grito
um beijo lento
e, por fim, o silêncio

Corpo Cansado



Dias cansados pela solidão
De sol a sol entalhado no corpo
Esses dias só de enxada na mão
Vem o interlúdio dos dias
O descanso que encharca as veias

Perde-se um beijo e um abraço
Nem um desejo ou grito de prazer
Tudo suspenso num pequeno espaço
Uma só manta sobre o peito
O sonho em veludo negro sem satisfazer

Encerra no silêncio toda a perdida paixão
Em longos e sinuosos caminhos percorridos
Gravados em relevo nessa face ausente
Ficam só as memórias de tempos idos
E as mãos negras de quem vai carregar o caixão

Tocar o Céu



Quero tocar o céu
Sentir o azul do mar
Entre os dedos meus
Eu quero tocar no céu
Lambuzar-me em algodão doce
Como uma criança
Pura em esperança
Eu quero tocar o céu
Sentir a suave brisa
A refrescar o meu corpo
Eu quero tocar o céu
Voar e nadar com os anjos
E rir, rir descomprometido
Num festim de alimento e folia
Eu quero tocar o céu
Guardar o teu bem estar
Estar por aí, por ti
Acompanhar-te
Eu quero tocar o céu
Digo-o até ao infinito dos desejos
A correr em minhas veias
Comprar os sapatos celestiais
E pôr-me a caminhar
Percorrer todo o vale
e subir a montanha
Até tocar o céu

Festa na Aldeia

Photo by Louis. K on Unsplash


As comadres alcoviteiam no largo
Saias negras e blusas beges
Os compadres surram em bombos
Fato domingueiro e bota engraxada
É festa na aldeia
O padre de sotaina engomada
33 botões de prata e outros 5 de ouro
Vai louvar a santa em procissão
É festa na aldeia
Os foguetes malditos despertadores
Jovens cansados de cerveja e traçadinho
A filarmónica da freguesia ao lado
Marca compasso lento ao andor pesado
É festa na aldeia
arrematação da chouriça e presunto
Quem tem abre o cordão à bolsa
Canta o organista alegrado
Homens no bar e mulheres a bailar
É a festa na aldeia

Nunca...



É uma concha vazia
Abandonada

É a despedida indesejada
A recusa sem aventura

É uma forte mentira
Sem saida do abismo

É a rápida escapatória

O engano de quem não se convence
Que nunca em nunca há verdade acente

Escrita a seu Tempo


A escrita é lenta
Demora o seu tempo
Em encontrar entusiasmo
Num fio de sentimento

Outras vezes distrai-se
No encanto
Do ondular do mar
Dos sonhos imensos

Mas também é esquecida
No pensamento 
De um delicado abraço
E de um sorriso teu

(Re)Encontro, Na Esplanada



A Primavera sempre vem
(é uma verdade comum)
mesmo que uma árvore decida hibernar
e não mais voltar
haverá sempre uma flor a seu lado
a florir como se dissesse
entre as suas rosadas pétalas
"A vida é para ser a sorrir".
E nesta verdade tão comum
esta máxima que alimenta toda a esperança
ele decidiu que era tempo de avançar
começou a caminhar
Embora todo o seu ser tremia
para a (re)conhecer.
Ele sabia
"Que mulher bonita, genuína alegria",
abismado no sorriso florido dela
pensou "esta é a minha primavera".
E não quis só um café
ou dois dedos de banal conversa
Quis perpetuar por horas inacabadas
em ela, a sua alegria.
Desejou acabar com o Outono e o Inverno,
não voltar a vaguear entre a chuva e o frio
Só abraçar e cuidar
essa flor que ao lado dele floriu.

Um Café, Na Esplanada



Era só um café, naquela manhã.
Nem frio, nem calor,
era a Primavera nesse dia
trazida pelo suave canto da cotovia.
Se fosse algo mais, ele não teria ido, 
este convite não teria existido.
Há tantos recantos onde se podia refugiar
sem ter que lhe dizer:
"Tão bom que é te amar".
Era só um café, distraído
por um cigarro e riso inquieto,
não mais do que isso, que isso bastava.
Foi nisso que se convenceu,
que a razão ditava:
o forçado sossego artificial.
Essa manhã, só por breve instante, olhar,
que era só contemplar o sorriso,
dela a felicidade em voo de liberdade.
Para ele, percurso penoso, aflito,
feito num instante
empurrado pelo coração:
"Se for já, é só um café, e não me prendo em ilusão".
Dois beijos e um olá, tão fácil que ia ser.
Acender um cigarro: "Tudo bem? Que bom te ver".
Depois? Seria só estar.
E o sorriso dela, a luz naquela Primavera,
acabou por confessar:
"Até um dia, adeus".

Um Dia, Na Esplanada



"Nunca mais te falarei!"
Disse - ele - todo convencido em certeza fácil,
entre um refresco e a sombra agradável
numa esplanada à beira do rio.
Parecia - a ele - um discurso ágil,
adequado ao calor sentido e o momento inevitável,
a facilidade dessas três palavras
tão simples e imediatas da mensagem
que não podiam resultar em engano.
Estava - ele - convencido que tinha essa blindagem.
Cedo apercebeu-se, a bebida aqueceu
e a ausência, prematura, do calor,
esse discurso ágil era mentira indesejada,
arrastada, da esplanada, pelo rio em corrente.
Quando - ele - da sua ausência se fez sentir
e que a razão no engano o fez cair,
nunca mais voltou à esplanada,
nem a esse rio.
Para evitar ouvir:
"Nunca mais te falarei".

Abstinência [Morte]



Certo dia acordei cego
- Grito!
De louvor a esta dádiva.
Se não vejo, não sinto,
e deixo-me estar
sem ambicionar
que ver é viver.
Quando de motivos já não abraço
e permito-me agora ao descanso
de tanto que quis em velha vida
Até agora.
Que me embriaguei
com tanta paixão.
Assolam os tremores
de abstinência.
São todas as dores
de terrível ausência.
A privação!
Ver é sentir
e eu que tanto quero,
esse sorriso sentido,
mas...
Estas forças já esgotadas.
Quero ir,
deitar e descansar,
Apagar!
Onde sei que já não posso estar.

De[]Pressão



No vácuo do pensamento em nós
Atados laços emaranhados
Essas horas áridas em deserto sem oásis
Na exaustão do caminho entre dunas enormes
Perdidos em desencontros dos nossos dias
Desenham-se ilusões em grãos de areia
E perdem-se promessas entoadas
Fica a sede por saciar
Em passos cada vez mais pesados

Nasci de Madrugada - Chamaram-me Liberdade

Nasci de madrugada e à alvorada, manhã de Sol por mim apaixonada, recebo um abraço encantado Nessa manhã que já cantava e dançava Ofereceram...