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terça-feira, 14 de março de 2023

O Homem que não chora

Foto de Lukas Rychvalsky na Unsplash


Numa noite fria 
daquelas que já não dá para caçar, 
entre nuvens, as lebres que olhos sonham 
em que as estrelas é que informam 
se é noite a coberto 

Ficou sentado sobre o rio 
numa ponte em ruína onde não passa alguém 
um corpo vazio a boiar 
em caminho para o mar 
sozinho, o sorriso desvanecia 
esperando ver outros que vivem mais além 

Ouve-se o ruído do arreganhado de um cão 
animal acorrentado 
tentando assustar a Ceifeira 
essa criatura de negro que corta a amarra 
e perde-se o barco no rio turbilhão 

Foi vida malandra 
quando trabalhava só colhia parra 
agora, silêncio! 
Que nestes montes já não habita ninguém 

Aproxima-se a foz 
nesta hora buzinadelas e algazarras descansam 
e o Homem continua só 
frio e inchado 
sabe agora, mesmo que o chamem, 
que tudo está terminado 

Nem a noite que sempre perde para o dia 
o vai desviar dessa ida

(Todos os direitos reservados - Nuno Laginhas)

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Velho Lobo

Photo by Tom Pottiger on Unsplash


Ouve-se o uivo do velho lobo na serra
Calaram-se as corujas
As fuinhas resguardam-se nas tocas
É o chamamento
O corpo do velho repousado
Iluminado da fenestra pelo luar
O canto da cegonha ouve-se pela manhã

O velho lobo recolhido pela alcateia
No sopé da montanha humedecido
Do choro das nuvens deste Inverno
Pairam os cristais divinais da pureza
E afastadas as andorinhas e os melros
É a renovação da alcateia
O silêncio do uivo do velho lobo
Inicia-se uma nova vida

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Corpo Cansado



Dias cansados pela solidão
De sol a sol entalhado no corpo
Esses dias só de enxada na mão
Vem o interlúdio dos dias
O descanso que encharca as veias

Perde-se um beijo e um abraço
Nem um desejo ou grito de prazer
Tudo suspenso num pequeno espaço
Uma só manta sobre o peito
O sonho em veludo negro sem satisfazer

Encerra no silêncio toda a perdida paixão
Em longos e sinuosos caminhos percorridos
Gravados em relevo nessa face ausente
Ficam só as memórias de tempos idos
E as mãos negras de quem vai carregar o caixão

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Abstinência [Morte]



Certo dia acordei cego
- Grito!
De louvor a esta dádiva.
Se não vejo, não sinto,
e deixo-me estar
sem ambicionar
que ver é viver.
Quando de motivos já não abraço
e permito-me agora ao descanso
de tanto que quis em velha vida
Até agora.
Que me embriaguei
com tanta paixão.
Assolam os tremores
de abstinência.
São todas as dores
de terrível ausência.
A privação!
Ver é sentir
e eu que tanto quero,
esse sorriso sentido,
mas...
Estas forças já esgotadas.
Quero ir,
deitar e descansar,
Apagar!
Onde sei que já não posso estar.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Flôr



Flôr não é dor
É alegria, é cor
É desejo de agradar
Respeitar e amar

Flôr não é morte
Não tem que estar em lápide
Pedra fria de mármore
Que morrerá um dia
Sem alegrar ou sossegar
A forte dor de uma ausência

Flôr é Vida
Celebração
É um beijo apertado
Sentido
Um sorriso instantâneo

(© Todos os direitos reservados) 

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