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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Epopeia de Prazer



Se todos os dias anotasse em escrita
As ideias que em mim vivem
Das que contam epopeias de prazer
Teria já uma biblioteca repleta de versos
Nenhum meu, todos teus

sábado, 2 de março de 2024

Funeral do Inverno

Foto: Nuno Laginhas 


Dobram os sinos
Morreste!
Capado em teu mau feitio 
odes ao negro e teu sobrenatural 
num instante riso envergonhado
 
E um longo choro irritante 
que derramaste em calçadas
sobre vultos em luto sentido
Morreste!

Deixa-nos agora cantar e dançar 
em rituais de fertilidade 
Guardar o nosso luto 
e, agora sim, viver 
sair da clausura para onde nos enviaste 
em passos menos apressados 
Que ao teu funeral vais sozinho 

É uma bênção 
os apaixonados envolvem-se
descobrem-se peles
intriga-se silhuetas sob leves sedas
só porque tu morreste
e nos dás de novo esperança

domingo, 31 de julho de 2022

Nuvens

Photo by Nikolas Noonan on Unsplash


Fim de tarde deste Verão,
na calma junto do manto cristalizado
estendi a velha manta de retalhos
e fiquei sossegado, a olhar, deitado
As nuvens a tocarem-se
como um entrelaçar das mãos
em toque suave de sedução
A aproximação dos seus lábios
carícia com calma, com tempo
e as mãos que voltam a tocar
juntas, como curiosa exploração
O beijo que agora foge e se funde
perdido no relevo dos seus peitos
Aumenta a temperatura
esse toque com tempo
Aguarda-se a humidade
sem revolta mas tremendo
As nuvens como duas pessoas apaixonadas
unidas, a provocada extasiada explosão

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Enchanté (de toi)

Photo by Natalia Sobolivska on Unsplash


Encantado
Já estive aí
Quando sorriste para mim

Encanta-me outra vez
(só desta vez)
Para voltar a sonhar

Encanta-me
Que mais nada tenho
Senão só o teu sorriso

Encanta-me
(teu encanto tão genuíno)
Que me faz perder o meu sentido

E ser encantado
Não é ser iludido
Como se isso fosse possível nesse teu autêntico jeito

Encanta-me
(só desta vez - sorri mais uma vez para mim)
Só mais uma vez

terça-feira, 5 de julho de 2022

Soltar



Quero descalçar-me!
Tirar estes rudes sapatos
(gastos)
Livrar-me deste sufoco
Libertar-me!
Rasgar a camisa
(de força)
E refrescar-me!
Logo de manhã pela fresca
sentir nos pés a erva molhada
a terra macia
Soltar-me!
Sem mais, sem olhar atrás
e correr
Descalço, despido
da força de te amar
(esta intensidade tão atada)
Procurar novos destinos
desatar os nós apertados
libertar o coração no peito cingido
E um dia voltar
afirmando
Agora, descalço, sou feliz!

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Amargura



Lágrimas que escorrem entre rugas,
esculpidas nas escarpas dos dias,
são elas as cascatas em Inverno.
A intransigência de uma desilusão
anotada a tinta permanente neste caderno.

A gazela que foge afoita do leão,
em corrida desenfreada de sobrevivência,
nesta savana extensa e estéril
tão longa que não acalma a existência.

Uma cotovia no topo de uma árvore.
de tantos voos e cantos entoados
nas manhãs quentes e alegres,
por fim cai, entre ramos escorre,
e os que reparam são tão poucos.

No fim o que fica registado no palato,
o forte sabor severo de um limão
sem um adocicado estrato
de uma paixão. 

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Corpo Cansado



Dias cansados pela solidão
De sol a sol entalhado no corpo
Esses dias só de enxada na mão
Vem o interlúdio dos dias
O descanso que encharca as veias

Perde-se um beijo e um abraço
Nem um desejo ou grito de prazer
Tudo suspenso num pequeno espaço
Uma só manta sobre o peito
O sonho em veludo negro sem satisfazer

Encerra no silêncio toda a perdida paixão
Em longos e sinuosos caminhos percorridos
Gravados em relevo nessa face ausente
Ficam só as memórias de tempos idos
E as mãos negras de quem vai carregar o caixão

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Abstinência [Morte]



Certo dia acordei cego
- Grito!
De louvor a esta dádiva.
Se não vejo, não sinto,
e deixo-me estar
sem ambicionar
que ver é viver.
Quando de motivos já não abraço
e permito-me agora ao descanso
de tanto que quis em velha vida
Até agora.
Que me embriaguei
com tanta paixão.
Assolam os tremores
de abstinência.
São todas as dores
de terrível ausência.
A privação!
Ver é sentir
e eu que tanto quero,
esse sorriso sentido,
mas...
Estas forças já esgotadas.
Quero ir,
deitar e descansar,
Apagar!
Onde sei que já não posso estar.

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