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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Fogo



Não passo de um animal
Cabresto de um raio
cintilante de arbustos floridos
arvoredos e prados coloridos
Rapo tudo!

Cores divertidas de urzes
E as rochas que tocam o céu
Salto, desfaço, corro e atravesso
Não arrefeço na noite da Serra
E rapo tudo o que tenho pela frente.

Matos, cascalheiras e turfeiras
E tudo não me basta
Sou cabresto de um raio
da mão amaldiçoada
Atormento lobos e o gado descansado. 

O carvalho de negral dei-lhe razão
as bétulas de igual modo ficarão
De vermelho incandescente afungentei
os homens e mulheres, crianças amedrontei

Sou esse animal 
mal encarado sem querer saber
o cabresto incandescente
Sopro ventos e tormentos. 

domingo, 24 de julho de 2022

Enxada



Sem-ti
Mãos rudes, calejadas 
Gretadas
A toque do cabo da enxada
Terra seca sem ser regada
Cavar, semear
Amainar
O tempo de germinar 
Colher
Sem enxada em minha mão 
Ou o suor que escorre 
Escreveria a suave toque 
Mas de alma pobre 
Sem ter como alimentar
Este fraco escrever

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Cartas de Amor

Photo by Ire Photocreative on Unsplash


Nem que seja amarrotado ou queimado
o intento de amar e de o querer afirmar
fica mesmo assim o desabafo em folha registado
Disfarçado do medo de falar e protegido do ouvir
E mesmo que se perca nos ermos montes da vida
as cartas de amor são escritas guiadas
por quem reside no coração do remetente
que dita as palavras tão sentidas
Palavras que despertam o doce em mil sabores
ou num amargo salgado de uma futura dor
E disso somos, agora, tão cautelosos
preocupados com tanta hipertensão
que abandonamos de vez, receosos
de escrever a elegante carta de amor

sábado, 16 de julho de 2022

Noite de Verão



Deito-me, envolto pela tormenta do lençol
como ondas que voltam e revoltam
não param
Estas noites de Verão na fornalha do Inferno 
E... Provavelmente mereço!
Despertar a arder
sem ser este o meu sofrer
Entre o pânico de procurar o ar
Perguntar 
Porque foste, assim tão breve?
Sem aguardar
Agora que os Demónios e Arcanjos bailam
Juntos! 
que o Céu e o Inferno se uniram
As confidências já não são segredo
perdidas no esperneio de voltas e mil voltas
Que nesta tormenta de calor
já não mais posso perguntar 
Porque te foste!

terça-feira, 12 de julho de 2022

Porra!



Às vezes, muitas vezes grito Porra!
e sem pudor também choro
Não fui germinado em terra negra
nos altos fornos do Diabo
Nem tolhido em terra de celibato
nas galerias ancestrais da castidade

Grito quando me irrito
À revelia do sossego instituído
Do pão desperdiçado, negado a quem tem fome
Do trabalho exagerado exigido ao coitado
Tudo me irrita, Porra!
Quando se tropeça na calçada percorrida
nem um braço, abraço, um apoio
como que sem dinheiro não fosse vida
Quando se fala e ouvem mais as paredes 
essas que não julgam nem apontam o dedo

Também choro quando vejo sofrer 
A dor de uma criança que não tem pão para comer
um brinquedo para rir, umas sapatilhas para correr 
O pai e a mãe, de sol a sol, negros de trabalho exagerado 
não calam o choro da criança 
que nem assim baixam os braços ou perdem a esperança 
Choro e não tenho vergonha 
Quando a caridade é efemeridade para a fama
de quem exige trabalho forçado mal pago
Quando o chicote esvoaça e mata

Grito e choro da diferença imposta
Da traidora falsidade de agradar
Da sonegada liberdade para brilhar
e da falta de oportunidade para estar e ser 
De perder para a justiça do rico
sem árbitro livre ou que não está adormecido
Grito Porra! e escorrem lágrimas
De príncipes e princesas fabricados
instruídos para fugirem da criança que não tem pão 
e um brinquedo dourado na mão 

E Porra!
Choro!
Quando a mãe que adoece e médico não tem
no sorriso belo de ouro engana a dor
na arena de leões é o único gladiador
e de pé, firme, grita: está tudo bem! 

terça-feira, 5 de julho de 2022

Mundo Suspenso

Photo by Yukon Haughton on Unsplash


Neste momento o meu pequeno espaço
parece o mundo
e tanta casa devastada
bombardeada
e eu livre, divertindo-me
Escola encerradas
crianças encarceradas
no tormento da explosão
não há tempo para a brincadeira
perdeu-se a jovial ilusão
Nem pão, vinho ou água
ou cama para repousar
e eu livre, tenho tempo para sonhar
Amigos perdidos
amantes desaparecidos
entre bombas e mísseis
procuram a liberdade
No curto espaço refugiado
a morte é visita e companheira
e eu no meu mundo desencarcerado
abraço a felicidade, canto e danço

sábado, 2 de julho de 2022

Amor... Viver

Photo by Matthew Henry on Unsplash


O Amor
Atrevido despudor
Fantasia de nudez
Embriagado
Por Vénus e Baco
É salteador
Saltador
Assaltador
E o que mais pode acabar
Em dor
É campo despido
Desprotegido
Incerto e choroso
Como dias de Abril
É ougado
Insaciado
Com todo o início apressado
É vento, ventania
Que embala e abala
Mas é o Amor!
Destemido
Sincero e nada arrependido
E sem ele não sei viver.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Fardo

Photo by Alexander Krivitskiy on Unsplash


Se eu pudesse falar
Dizer
O que vai em mim
Sem que seja pesado fardo
Para ti
Soltar esta vaidade
De estar apaixonado
Libertar
Dessa morfina
Da distância do sonho
Mas que não seja fardo
Para ti
Carrego eu
Só eu
Auxiliado por um receio
Todos os gritos
De desejo
Dizer
Só para mim
Acorrenta-me, em Mosteiro
O silêncio
O delírio da ilusão
E eu combato
Este exército miudinho
Desde as entranhas
Dominadas
E não te tiro de mim
Calado fico
Para ti
O fardo seja meu
Porque assim eu quis 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

O Tempo que Esgota o Momento

Photo by Jon Tyson on Unsplash


Aquele momento em que tocamos no interruptor
Acto breve e simples em que se extingue a luz
E os espaços tornam-se em sossego para uma dor
Só então se apercebe que breve foi o dia
Quando as horas se diluíram em segundos
E o tempo que era tanto afinal não bastou
Usurpa-se, então, os momentos que não controlamos
Em que o tempo, sem se entender, é de sua vontade
Esse tempo que nos foge e que ele mesmo afugentou
Esse tempo que faltou, que iludiu
Que nos deixou embalado pelo gesto suave
Um sorriso genuíno e um beijo quente
E ficamos aí, detidos, nessa inebriante vontade
Sem nos apercebermos que o tempo, esse maldito
De sua vontade, incontrolado, esgotava
Então, faltou tempo!
Que agora tanto sobra, que desliga, em acto automático
A luz e carrega a dor do sossego
O tempo que devia ter sido basto
E não só aquele instante momento
O bastardo que não regressa
Mas que se apressa
Sem dó, trazer na memória esse breve tempo
Em acto cruel que nos torna fieis em esperança vã
A querer ter esse novo o tempo


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Odeio P...n!

Photo by Tina Hartung on Unsplash


Há dias irracionais
Alimentados por líderes irracionais
Dias que fazem perder o sentido da vida
Em que ficamos revoltados, abismados, preocupados
Ver tanto Ser a sofrer
Pela mão de um beligerante cleptocrata
Como um Ivan, O Terrível que
Friamente
Despreza a vida da Humanidade

Nesta guerra, como em outras, ninguém vai ganhar
Quando sempre se assiste ao Homem morrer
Sem saber porquê
Pelas mãos cegas, ensanguentadas
De vil mandatário
Só porque odeia a liberdade
E deseja estabelecer a paranoica hegemonia

Não se percebe este tamanho ódio
E a obsessão de anexar
Fixado em dogma ultrapassado
Sem se importar com a dor que vai provocar

(© Todos os direitos reservados)

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Opinião da Dana

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