Vento

Uma pétala
e mais outra
agora mil, em alegria

Um bailado
de corrupio
em Maio, das maias

Do vento
já pouco frio
em doce ondulação sem aflição

As verdes ondas
dos campos, agora inquietos
sem o frio álgido

Sussurros mensageiros
em melodias
de baladas, de uma nova paixão

Árvores Despidas



A aguardar o solstício de verão
ido o tempo de agasalho despido
aguardam inertes sem embalo
as árvores vigilantes sem quererem incomodar

Cidade Encerrada

 
Imagem gerada por Adobe Firefly

Fui questionando quem passava
apressado para fazer o nem sei o quê
o caminho de saída desta cidade
procuro-a a norte, a sul, por todos os caminhos
e não encontrei, só um deslise para o mesmo caminho
Fui-me sentando, cansado, entorpecido, em esplanadas
num bar pouco frequentado e bebendo
escorrido de caixa encerrada hermeticamente 
como eu nesta cidade que suscita grito de liberdade
Não preciso me levem pela mão
só mesmo indicarem-me o caminho
por mim saio sozinho, estrada a cima
com o primeiro passo sem sorrir e
de lábios secos com vontade de os refrescar
numa fonte de água adocicada, translúcida
água de verdade sem ser em caixa encerrada
E de manhã poder continuar a admirar
o caminho que tenho que seguir sem ter que regressar
a uma esquina da cidade 
num bar sem ser frequentado.

Dançava


Foto de Nihal Demirci Erenay na Unsplash

Pensei em te estender a mão
e convidar-te
a um abraço
enquanto caminhávamos em passo lento 
No entretanto distraí-me
na doce melodia que me encantava
nesses acordes
já não era só um abraço
era mais
Eu contigo dançava
ao ritmo da valsa do teu manear
sem ser esse teu jeito atrevido
mas muito sensual
acompanhado
por cada palavra por ti recitada
eu dançava
Contigo dançava
soltava-me de meus passo trôpegos
do meu jeito sem ritmo
em que as pernas me prendem
e os braços gesticulam movimentos envergonhados
Era isto que eu sonhava
enquanto pela rua caminhávamos
segurar tua anca
e tua mão
enquanto me absorvia, radiante
no teu sorriso
em cada verso teu que me enfeitiça
A rua só para nós
e se dançava
sob a chuva ou no calor
que nada mais é do que provocador
sentir-me a arrepiar
da tua carícia em me abraçar
dançava
e dançava
e dançava

Funeral do Inverno

Foto: Nuno Laginhas 


Dobram os sinos
Morreste!
Capado em teu mau feitio 
odes ao negro e teu sobrenatural 
num instante riso envergonhado
 
E um longo choro irritante 
que derramaste em calçadas
sobre vultos em luto sentido
Morreste!

Deixa-nos agora cantar e dançar 
em rituais de fertilidade 
Guardar o nosso luto 
e, agora sim, viver 
sair da clausura para onde nos enviaste 
em passos menos apressados 
Que ao teu funeral vais sozinho 

É uma bênção 
os apaixonados envolvem-se
descobrem-se peles
intriga-se silhuetas sob leves sedas
só porque tu morreste
e nos dás de novo esperança

Abril tem que ser todo o ano

Ilustração: Marta Nunes


Não!
Determinantemente recuso
que Abril, em Portugal, seja só em Abril
que Abril, agora em Fevereiro, comece em Março
que Abril seja comemorado a 25 de Abril
 
Não!
Determinantemente recuso
que 50 anos sejam só um número para envelhecer
que ainda haja militantes em clandestinidade
que o poder não seja do Povo
que a Governação silencie com esmola quem quer ter pão para comer
 
Sim!
Determinantemente aceito
que seja proclamado por quem Governa liberdade para viver
que cada oportunidade seja para todo o Povo
que habitação devida seja para Todos
que a solidariedade seja identidade

Sim!
Determinantemente aceito
que cada palavra, dança, pintura e música seja alento do Povo para criar
que o trabalho seja para viver e não matar
que Abril seja todos os dias, de cravo na lapela, no cano de uma arma
que Abril seja sempre .

Mondego, Mondego encontrei um amigo

Foto: M.


Poderia ser meu amigo
que passeasse comigo
Preferiu dar um tiro
atirar comigo ao rio

Escolheu fazer caminho sozinho
com seu ar convencido
A vitória não lhe escapa
mas a glória é nenhuma

Mondego, Mondego para onde vais?
leva-me agora contigo
Já não tenho meus pais
e perdi para a luta um amigo

Não sou pobre, não sou rico
não tenho uma burra nem um penico
mas tenho a força para continuar a lutar
e mais amigos para abraçar

Se são muitos, se são poucos
a mim não me interessa
nem tão pouco se são loucos
para estarmos sentados à conversa

Mondego, Mondego para onde vais?
leva-me agora contigo
Afasta-me destes punhais
que na próxima terra tenho um amigo

Nem sempre, nem nunca, nem sozinho
seja punhal ou arma de tiro
que essa força de traição
consiga abalar a minha convicção

Um amigo, um abraço, um copo de vinho
Mondego, Mondego já cheguei
e tanto amigo nesta terra encontrei
Não volto a caminhar sozinho

Vento

Uma pétala e mais outra agora mil, em alegria Um bailado d e corrupio em Maio, das maias Do vento já pouco frio em doce ondulação sem afliçã...