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sábado, 2 de março de 2024

Funeral do Inverno

Foto: Nuno Laginhas 


Dobram os sinos
Morreste!
Capado em teu mau feitio 
odes ao negro e teu sobrenatural 
num instante riso envergonhado
 
E um longo choro irritante 
que derramaste em calçadas
sobre vultos em luto sentido
Morreste!

Deixa-nos agora cantar e dançar 
em rituais de fertilidade 
Guardar o nosso luto 
e, agora sim, viver 
sair da clausura para onde nos enviaste 
em passos menos apressados 
Que ao teu funeral vais sozinho 

É uma bênção 
os apaixonados envolvem-se
descobrem-se peles
intriga-se silhuetas sob leves sedas
só porque tu morreste
e nos dás de novo esperança

domingo, 20 de março de 2022

O Inverno

Photo by Aditya Vyas on Unsplash


Suave, num silêncio terno
na isolada árvore pousou
e uma só folha que restava
junto com o vento voou
a pairar num campo desolado
o Inverno anunciou

Ficam submersos os sorrisos
disfarçados na neblina dos dias
em ruas despidas em desalento
embalados pelo gélido movimento
dos ramos agitados pelo vento

Fica a ausência do turbilhão do chilrear
que agora escondidos no resguardado recanto
Acolhem, aconchegados, o pingo suave
na expectativa que o sol volte a brilhar

(© Todos os direitos reservados)

domingo, 6 de fevereiro de 2022

O Inverno em Nós

Picture by Isabel, 11 anos


Não se vê alegria
Nesta dura realidade
Em cada rua desta Cidade

Faces ocultas e fechadas
Entre sussurros sob beirais
Que não abrigam mais
Os doces acordes de baladas

Abrigam-se neles corpos inertes
De mentes que não se advinham ilusão
Deixados ir no turbilhão
Na corrente de outros tempos

Esforçam-se em disfarçar tragédias
De tantos pesados dias

Fixos de olhares distantes, dispersos
Procuram, como animal esfomeado
A sobrevivência dos ocultos desejos

Terminado o dia, o penal sacrifício
Na cidade deste Inverno
Em tudo se mantém o silêncio

(© Todos os direitos reservados)

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Carvão



Mexer no carvão
faz-me perder a claridade, 
a limpeza da minha mão. 
É como alma amanhecida
que um dia, em Inverno, 
Ficou triste, escurecida

Por mais palavras que desenhe
ou rimas procure, 
a tormenta mais acentua
em comoção aflitiva
na expectativa impaciente
de procurar a torneira
e enxaguar a mão do negro ambiente. 

É como a alma lavar, 
em despertar de sentidos, 
de nova aventura
e esperança na palavra conjugar. 

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