Digam-me para sorrir©

Auto-retrato


Digam-me para sorrir
Sem contarem história de encantar
Ou anedota que me faça rir
Sem uma palhaçada ou careta emaranhada
Que disso canso-me todos os dias
Em casa, no trabalho ou a caminhar

E nem se atrevam a dizer que é difícil
Não sorrir

Sem o encanto de um abraço
O doce de um longo beijo
Ou o calor de duas mãos entrelaçadas
Sem uma conversa a dois
Sem uma música que me faça dançar

Assim não é tarefa fácil, pois não?
Mas não chorem agora vocês, senão

Tenho que vos contar uma história de encantar
Uma anedota para se rirem
Ou uma palhaçada com careta emaranhada

E como disse
Disso canso-me todos os dias.

Vento de Outono

Imagem gerada por AI


Neste curto espaço que é o tempo
umas vezes frio, em poucas ocasiões quente
as folhas de Outono desencantam-se
depois de um Verão de promessas de cores garridas

Abandonam que as viu nascer e as fizeram crescer

O vento sopra-lhes novas aventuras
ou epopeias até ainda não vividas

Vai insistindo em suaves palavras
Se não as convence naquele instante do primeiro sussurro
irrita-se! Sopra-lhes fortes impropérios

Tem um único objectivo, de as fazer abandonar
a casa que as viu nascer

Umas, de desencanto sofrido, aventuram-se
e nesse imediato encantam-se
nas doces traiçoeiras palavras do vento
Não voltam, desaparecem

As outras, que pouco desencanto sentiram, ou de pequenas expectativas
agarram-se com a força que vem do medo
e nem o vento vituperioso as arranca da mãe

Afirma o vento, em última tentativa para as convencer,
"está a acabar o vosso tempo, têm que sair!
Ou com a vossa mãe vão morrer"

Umas, sem notícias das que desapareceram, são convencidas
e com o vento dançam até ao canto de um canteiro abandonado

As outras aguentam até ao inverno
junto de quem as viu nascer
para nesse tempo que está sem espaço, terminado,
agarradas à mãe para juntas morrerem. 

O Meu Jantar

Gerado por AI


O jantar devia de ser preguiçoso, partilhado
uma vez que o dia corre, foge
embora fechado, sentado
Devia de ser, digo-o bem, em lento canto
mas corre ele também, apressado
Não vá a noite fugir e deixar de sonhar
As garfada são rápidas
e o sustento quase sem ser mastigado
é sorvido como foi o dia, sem prazer

Quem me espera? Ninguém
mas bracejo como a rapidez de um raio
limpo o prato e despejo o copo de vinho
que tenho que sair, rápido
Tomar um café, já sei sossegado
na esplanada nocturna e aguardar
Só não sei muito bem por quem
Passou tudo à correr
e a bem ver ainda nem começou a anoitecer

Não me demoro
Do tempo que deixei fugir de dia
não quero que me escape, regresso
Agora calmo, desiludido
da pressa de jantar e de um café tomar
para, de novo, deixar escapar
esta noite, que devia de ser para sonhar

Não me provoques o silêncio


Arde-me o coração com o desespero
                                     de te escrever
E fui silenciado desse desejo
                                   de te satisfazer

Si-lên-cio!
Desses lábios que sussurram
                        virginal prazer
tão bem definidos, encerrados sem sorriso

Si-lên-cio?
   Se são a minha perdição
de tão lindos que eles são

Ou escondes desejo carnal?
desse abafado silêncio
desvendado pelo arfar do teu peito

Si-lên-cio!
É grito de desejo de nós aqui encerrados
                       do nosso amor insatisfeito

Escorrem-nos gotas de luxúria
e queres silêncio?
E eu quero libertar a nossa fúria. 

(todos os direitos reservados - Nuno Laginhas)

O Homem que não chora

Foto de Lukas Rychvalsky na Unsplash


Numa noite fria 
daquelas que já não dá para caçar, 
entre nuvens, as lebres que olhos sonham 
em que as estrelas é que informam 
se é noite a coberto 

Ficou sentado sobre o rio 
numa ponte em ruína onde não passa alguém 
um corpo vazio a boiar 
em caminho para o mar 
sozinho, o sorriso desvanecia 
esperando ver outros que vivem mais além 

Ouve-se o ruído do arreganhado de um cão 
animal acorrentado 
tentando assustar a Ceifeira 
essa criatura de negro que corta a amarra 
e perde-se o barco no rio turbilhão 

Foi vida malandra 
quando trabalhava só colhia parra 
agora, silêncio! 
Que nestes montes já não habita ninguém 

Aproxima-se a foz 
nesta hora buzinadelas e algazarras descansam 
e o Homem continua só 
frio e inchado 
sabe agora, mesmo que o chamem, 
que tudo está terminado 

Nem a noite que sempre perde para o dia 
o vai desviar dessa ida

(Todos os direitos reservados - Nuno Laginhas)

Cidade Encerrada

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