A Visita... Autobiografia



Hoje, como tantas outras vezes, fiz-te uma visita 
E, como tantas outras vezes, não estavas
Insisto neste desejo, estar aqui, ao pé de ti
Mas, como tantas outras vezes, fico só aqui
A olhar para a porta, a aguardar que a abras
E, aí sim, corro logo para teus braços 
Sei que nunca mais irá ser assim, contigo aqui
Duvido da minha capacidade mental 
Em acreditar que algum dia não teremos um monólogo 
Já não é esperança, nem desejo ou saudade
É angústia da minha incapacidade
De ser e ter o horizonte raiado pelo sol
Mas, como tantas outras vezes, volto a ti
A algo que já foi e não devia ter fim
Que me elucides, esclareças, me orientes
Raio de amarra que me prende e teima em não soltar
Estar aqui, como outras tantas vezes, à espera de ti

Amante sem Par



Visão cerrada no turvo nevoeiro,
que entre o denso esconde o amor verdadeiro.
O esforço do bracejar não aclara o ar,
nem o caminhar faz encontrar seu par.

Em ruas e vielas de acelerada ansiedade,
de rodopiar confuso e estonteante
Uma corrida ou salto não distrai a multidão
do isolado acto de busca incessante.

Por mais esforço e livre sentimento,
nada acalma vil aneurisma do pensamento.
- Que um dia tudo termina,
em riso pouco marcado, em diálogo isolado.

Desassossego sem par é alimento mortal,
é amargura constante.
E vai corrompendo cada órgão vital
Que esta ansiedade não deixa encontrar seu par. 


Anacrónico ou Monocórdico?



Haverá pessoas que um som não é muito
Um som, uma só melodia não basta
É essa a força do seu movimento
O que os faz distintos de toda a casta

Depois deambulam por aí os outros
Os que cinicamente se situam
Que nem vão, nem ficam
São os que ouvem o som dos outros

Os anacrónicos têm algo que é seu
Tecem renovadas melodias
Numa branda brisa até ao céu
Em alegres e letradas orgias

Os outros, de comum hábito
Caminham de monocórdica passada
Presos no banal atrito
de vida tão forçada

A distinção é entre o movimento
e o silêncio do sossego,
Entre o livre atrevido
Ou o que deseja ser bento

O Trilho para Caminhar

 


Fiquei a contemplar o firmamento, 
O oposto do vasto horizonte azul
Matizes de verde, castanho e cinzento
Sem saber distinguir o norte e sul

Alheado no cicloópico monte
Pus-me a imaginar o enigmático trilho
Os desafios que tenho pela frente
Quantos tenho para encontrar esse rosado brilho

Desconfio que nem seja perto ou distante
O monte ofusca tanta concepção
Não sei o sentido, nem quadrante
Mas nem assim abro mão

Mesmo que escorregue ou tropece
No Trilho coloco-me de novo
Pois o quente rosado me robustece
Só por ele eu me renovo

Isolamento


Mesmo que te ouça
Não te vou sentir
Por aqui não passa nada
Não se fala nada

Tenho um deserto em mim
De desassossego. 
E num ápice, assim
Fiquei sem missão para executar
E caminhos para andar

Invejo o céu azul
Os verdes campos. 
De tudo o que posso fazer
É aqui estar, tentar ser

Ainda não perdi a voz
Mas estou em espaço mudo
Nem estou surdo
Mas o silêncio é atroz 

Assim fico
Inquieto 
Com retratos no infinito


Aos teus Olhos



Aos teus olhos
Serei uma árvore
Estejam eles abertos ou cerrados
Serei sempre uma árvore

De movimento involuntário
Enraizado num só espaço
No Outono 
Entristeço
Na Primavera
Engrandeço

Serei sempre uma árvore

Perdido no tempo a utilidade
Acentuada a futilidade

Não serei mais que uma árvore
Ali, só 
Mesmo que revigore
Aos teus olhos
Serei uma árvore tão só

Autobiografia... A Chuva



Há algo sobre mim que agora vais conhecer.
- Adoro estar no alpendre ver a chuva cair. 
Em silêncio, emergir no som da gota a descer, 
com um cigarro, um chá quente, deixar-me abstrair

Adoro olhar as árvores a saciar a sede, 
a reter cada pingo nos seus braços. 
Adoro ver a terra que humedecer, 
alimentando as plantas, regando todos os seus espaços

E se for na Primavera?
Cada pingo a cair na terra verdejante
Aquele aroma húmido, refrescante,
a cada pingo que de esperança aglomera

Sentes este meu enlevo?
Se estiveres ao meu lado ainda melhor. 
Mais eu sinto a esperança do momento, 
a partilha do que sinto, a alegria do evento. 
Não serei um só, serei algo maior. 

Filhas...



Criança minha, ar que eu respiro,
meu espaço, amarras do meu amanhã
Liberta-te, expande-te, sai desse retiro
Não temas, tu és a corajosa titã

Ladrilho a ladrilho que seja percorrido
Acredita! Que descalça não irás, 
nem de mão desocupada, nem ausente de apelido... 
Confia no teu reflexo, no teu sorriso sem mentiras

Confia no teu caminho, no objetivo destemido
Tens aqui um escudo, soldado da tua trincheira 
Não temas, criança minha, valente sonhadora 
Acredita, terás caminho protegido

Terás sempre à frente arma corajosa
Na retaguarda força vigorosa

Criança minha, meu espaço, calor no Inverno
De cabeça erguida, não haverá besta maliciosa
Nem ave negra invejosa

Discurso para a minha Consciência



Qualquer dia já não há amor!
Se não tivermos discernimento, 
perdemos o sentimento, 
arrastamos connosco uma forte dor. 

Havemos de acordar no Apocalipse, 
numa terra sem natureza, 
se assim continuarmos sem delicadeza. 

Havemos de morrer incompletos, 
mas antes mataremos o mundo. 
Será que temos consciência de como somos obsoletos?
Será que nos apercebemos o quanto estamos no fundo?

Senhoras e Senhores,
será que nos basta um discurso folgaz, 
de político convencido, de pensador sagaz?
Mais precisamos, de acção, de momentos precursores

Perdermos o amor, o sentimento e aceitarmos a dor, 
não construiremos, nem tão pouco salvamos
o que outros tantos construíram com ardor, 
destruíremos as árvores e os verdes ramos. 

Nada nos vale ficarmos assustados, 
quietos ou até calados. 
Somos milhões que existimos
e tanto uns dos outros precisamos. 

Sim, acredito no respeito e amor, 
na originalidade, 
no desejo e no ser defensor, 
na pessoa que sinta cumplicidade.

É isto que valeremos, que seremos,
acreditando no altruísmo global, 
poderemos salvar o mundo, seremos mais serenos, 
Mulher e Homem imperial. 

Se da particularidade fizermos parte
deste Mundo e da acção de salvar, 
acreditem que a dor acabará é voltará a arte, 
o amor por este Mundo melhor, e algo para cultivar. 

Outono dos Amantes

 


Entrospectivo
Do espectro emotivo
Do dia nebuloso
Da noite serena
Chuvosa

O Outono do agasalho
Do coberto remendado
O crepitar da chama
Silêncio abafado
Pelo grito de quem ama

Agarrados ao tórrido chocolate
Olhar sem combate

Ouvir, emergir, sentir
A gota de chuva mansinha
O vento que vem despir
Um desejo que se advinha

Agora,
Noite de Outono,
de nova hora
Dois amantes sem dono
Entrospectivo
Emotivo

O Amor de Coimbra

 

Fonte: http://www.portugalnotavel.com/torre-da-universidade-de-coimbra/

Sentei-me no Penedo da Saudade
Olhei para a "Lua de Prata" 
Sentinela da paixão, inspiradora de vivacidade
Com o desejo de uma serenata

Dedilhei a coimbrã guitarra
Fiz esvoaçar melodia de uma balada
Caminhando pela Sé Velha
Anseio por te encantar à janela

Sou um "humilde trovador" 
De "capa negra" traçada
Aguardo-te na Porta Férrea
Serei o teu romântico prosador

Não me irrito com a "cabra" 
Com o sino de 15 minutos atrasado
O que me mantém desperto
Que faz aclarar meu caminhar na calçada

Subo o Quebra Costas, deslumbro-te à janela
Tu, minha "bela donzela" 
Para ti canto a serena balada
A doce melodia delicada


Quando o Vampiro me sugar as capacidades

Bela Lugosi as Drácula - https://cinemaclassico.com/listas/10-fatos-sobre-bela-lugosi/

O dia que eu deixar de sentir
Quando do poema desistir
Aprisiona-me em sete palmos de terra
Mesmo de olhos abertos
Já não combaterei mais alguma guerra

Serei besta errante e delirante, 
pior que Belzebu
Ser intragável e abominável
Serei algo intratável

Se um dia deixar de sentir
Já não sou de ninguém
Pertencerei ao cornudo do Além 
Serei vil bastardo
Otário retardado

O dia que eu deixar de sentir
Não poderei ser mais amado, 
nem ente desejado
Serei parte restante
De algo que já foi e amou
E na incerteza rejeitou

No dia que deixar de sentir
Nem serei digno de mim
Não serei homem para sorrir
Serei a doença mais ruim

Não insistas em me cuidar
Já não serei capaz de amar
Não serei quem já fui
Serei acre pús que da ferida flui

Não sei como me sinto


Hoje não sei como me sinto
Não me apetece sorrir
Nem chorar
Não quero caminhar
Nem estar parado
Quero ficar calado
E quero falar
Quero olhar
E estar de olhos cerrados
Quero soltar amarras
E ser prisioneiro
Quero dar o salto
Ou então ficar quieto

Não sei como me sinto
Se escreva
Ou rasgue o papel
Se me alimente
Ou jejue a minha alma
Se acelero o batimento
Ou mantenho a calma
Se carrego o meu peso
Ou liberto a mala

Hoje não sei como me sinto
Não sei se serei ser presente
Ou a entidade ausente
Não sei se sou quem te abrace
Ou aquele que te liberta
Se sou aquele que te anima
Ou quem te irrita

Perder o Verbo

 


Começou por ser um risco
Um simples rabisco
Uma letra imperceptível
Em forma de pingo de mel

Juntou-se mais uma letra
Riscada por caneta convencida
E, de repente, como um penetra
Saiu uma palavra desprotegida

Rasgada de incerteza
Ansiosa por um predicado
Que não mostrasse fraqueza
Ficou à espera, com algum cuidado

E agora? Lamentou...
Que a tinta acabou
Com o papel rasgado
Sem Verbo completado

Palavra sozinha,
Sem sentido
Amargurada por ter perdido
O Verbo para outra linha

Cair da folha, Rebentar da folha


Reúne-se tudo à minha volta
Com um espasmo de alívio
Com um desejo sentido
Mas um sopro de momento basta
Ficar só numa nudez desconfortante
Desconcertante, desafiante
Abandonar de vez o que tudo trazia à minha volta

Deixar fugir a cor que animava
A cor que tanto desafiava
Com uns pingos convencidos
E cópia de outros repetidos

Uns fogem
Outros não vêem
E outros se escondem
Já ninguém me quer

Mas numa luta abismal
Entre o breu e o raio dourado celestial
O azul profundo aparece
Como um abraço quente que enrijece
De novo o verde aparece
E tudo à volta torna a reunir
Para voltar a sentir, sorrir e compartir

A Viagem para ti

Photo by mostafa meraji on Unsplash


Sentei-me no beiral da serra
Contemplei o vasto céu
A longa distância da terra
Como meu grande troféu

Sou a Fénix da esperança
Que do alto da imensidão azul
Apreciei o ondular da tua dança
O teu relevo corporal
Os raios dourados do teu ser imperial

Do meu amigo vento tive o impulso
Para percorrer serras, vales e planícies
E regressar à superfície
De um abraço que não quero expulso

Sim, muito mais caminharei
E muito mais farei
Para ter em ti
O amor que senti

Pois, enquanto Fenix que serei
Da esperança reforçada
Nem a distância apertada
De ti me afasterei

Nasci... E o que sou?



Nasci a ferros, arrastaram-se para a vida

Acreditei em todos, com uma coragem de agradar

Ingénuo, palerma, tolo

Fui perdendo companhias com a idade


E neste instante ouço

Cresce, sê livre, voa, corre

Como um leão na savana

Cria o teu novo reino, ergue uma nova torre


Se fosse assim tão fácil

Libertar das amarras das crenças

Renascer, criar e voltar a ser

uma nova oportunidade, um novo momento, uma vida


Olhar para a frente quando tanto caminho já percorri

Já estou cansado, esgotado, sendo certo que ainda não morri

Mas já gastei tanta sola,

já esfarrapei tanta calça


Agora que falta tão pouco,

nem que corra

Já não é suficiente , já não tenho tempo

Paro? Reduzo a caminhada?


Não!

Grita alguém com força

Nem que te volte a arrancar a ferros

Continua, esforça!


E num ápice, olho para cima

Contemplo-te, és tu

Quem sempre segurou a minha mão

Que comigo tanto caminhou


Continuas por cá?

Não vês que sim

Por ti e por mais alguém

É esse o meu propósito, a minha essência

A Tua Beleza...

 Não olho para o chão

Não me interessa a cornucópia da calçada

Nem a beata pisada

Muito menos o caído tostão


Olho para cima

Procuro o teu rosto

O teu cabelo longo

A volúpia do teu corpo

Os teus lábios rubros

O sorriso de ouro


Para poder sonhar

Para poder acreditar

Que um dia, amanhã 

Talvez será 

O tempo para te contemplar

O momento para te abraçar

Desejo um Abraço Teu

Quando é que te abraço 

Algum dia

Olhar o mar contigo

Num momento só nosso 

Não importa a multidão 

Sem mais ninguém 

Só tu

O teu abraço 

Um beijo de Verão 

E tudo ficará bem

Quando é que te vejo

Um dia

Basta contemplar-te

Voltar a dizer olá 

Um abraço imenso

Nas ondas da paixão

Confiantes do nosso mundo

Sentados num areal

Sem mais ninguém

Só tu

De novo o teu quente abraço

Um beijo salgado

Um oceano de amor

Cidade Encerrada

  Imagem gerada por Adobe Firefly Fui questionando quem passava apressado para fazer o nem sei o quê o caminho de saída desta cidade procuro...