Dançava


Foto de Nihal Demirci Erenay na Unsplash

Pensei em te estender a mão
e convidar-te
a um abraço
enquanto caminhávamos em passo lento 
No entretanto distraí-me
na doce melodia que me encantava
nesses acordes
já não era só um abraço
era mais
Eu contigo dançava
ao ritmo da valsa do teu manear
sem ser esse teu jeito atrevido
mas muito sensual
acompanhado
por cada palavra por ti recitada
eu dançava
Contigo dançava
soltava-me de meus passo trôpegos
do meu jeito sem ritmo
em que as pernas me prendem
e os braços gesticulam movimentos envergonhados
Era isto que eu sonhava
enquanto pela rua caminhávamos
segurar tua anca
e tua mão
enquanto me absorvia, radiante
no teu sorriso
em cada verso teu que me enfeitiça
A rua só para nós
e se dançava
sob a chuva ou no calor
que nada mais é do que provocador
sentir-me a arrepiar
da tua carícia em me abraçar
dançava
e dançava
e dançava

Funeral do Inverno

Foto: Nuno Laginhas 


Dobram os sinos
Morreste!
Capado em teu mau feitio 
odes ao negro e teu sobrenatural 
num instante riso envergonhado
 
E um longo choro irritante 
que derramaste em calçadas
sobre vultos em luto sentido
Morreste!

Deixa-nos agora cantar e dançar 
em rituais de fertilidade 
Guardar o nosso luto 
e, agora sim, viver 
sair da clausura para onde nos enviaste 
em passos menos apressados 
Que ao teu funeral vais sozinho 

É uma bênção 
os apaixonados envolvem-se
descobrem-se peles
intriga-se silhuetas sob leves sedas
só porque tu morreste
e nos dás de novo esperança

Abril tem que ser todo o ano

Ilustração: Marta Nunes


Não!
Determinantemente recuso
que Abril, em Portugal, seja só em Abril
que Abril, agora em Fevereiro, comece em Março
que Abril seja comemorado a 25 de Abril
 
Não!
Determinantemente recuso
que 50 anos sejam só um número para envelhecer
que ainda haja militantes em clandestinidade
que o poder não seja do Povo
que a Governação silencie com esmola quem quer ter pão para comer
 
Sim!
Determinantemente aceito
que seja proclamado por quem Governa liberdade para viver
que cada oportunidade seja para todo o Povo
que habitação devida seja para Todos
que a solidariedade seja identidade

Sim!
Determinantemente aceito
que cada palavra, dança, pintura e música seja alento do Povo para criar
que o trabalho seja para viver e não matar
que Abril seja todos os dias, de cravo na lapela, no cano de uma arma
que Abril seja sempre .

Mondego, Mondego encontrei um amigo

Foto: M.


Poderia ser meu amigo
que passeasse comigo
Preferiu dar um tiro
atirar comigo ao rio

Escolheu fazer caminho sozinho
com seu ar convencido
A vitória não lhe escapa
mas a glória é nenhuma

Mondego, Mondego para onde vais?
leva-me agora contigo
Já não tenho meus pais
e perdi para a luta um amigo

Não sou pobre, não sou rico
não tenho uma burra nem um penico
mas tenho a força para continuar a lutar
e mais amigos para abraçar

Se são muitos, se são poucos
a mim não me interessa
nem tão pouco se são loucos
para estarmos sentados à conversa

Mondego, Mondego para onde vais?
leva-me agora contigo
Afasta-me destes punhais
que na próxima terra tenho um amigo

Nem sempre, nem nunca, nem sozinho
seja punhal ou arma de tiro
que essa força de traição
consiga abalar a minha convicção

Um amigo, um abraço, um copo de vinho
Mondego, Mondego já cheguei
e tanto amigo nesta terra encontrei
Não volto a caminhar sozinho

A Vida num Banco de Jardim©

©Nuno Laginhas

Num banco de jardim
enquanto o frio ainda estava no hemisfério sul
fui habitando
paredes caiadas, outras pintadas
outras de pedra e musgo
o tecto de dois tons, azul céu de manhã
azul escuro pintalgado de luz pela noitinha
e fui morando
numa rua de tantos vizinhos
diga-se de passagem, sisudos
sempre apressados para o trabalho
para o jantar, com algum familiar
ou um convívio mais animado
ao meu jantar estou sempre acompanhado
são convidados vestidos de verde e castanho
às vezes solto um sorriso,
parece Carnaval, um baile de máscaras
mas cada um alimenta-se do que tem
com nutrientes dissolvidos em copo com água
eu, com o que sobra da refeição anterior
e deito-me, deixo-me embalar
nos ritmos compassados
da percussão que vai passando
de manhã desperto com música assobiada
alegre, mais um dia para estar
é o meu banco de jardim
umas vezes sozinho
outras acompanhado de quem vai
até outro lugar, à procura de um jardim

Pardal

Foto de Tobias Roth na Unsplash



Cui Cui Cui pardal
tanto pipilar que fazes pardal
e esse serpentear entre ramos
juntas-te a outros
e são um coro, cui cui cui todos os pardais
ramo acima, ramo abaixo
mudais de árvore e até dos beirais
não é debaixo de telha onde tem o vosso recanto?
Que belo bando o teu pardal
mas tão afoitos no chilrear 
cui cui cui vão acasalar?
Bem me queria parecer
estão a combinar como fazer
a saltitar no chão até encontrar
para cada um uma migalha
antes que venha o pomo temerário
crruu crruu crruu pombo
já não bicaste suficiente pão e um pouco de bolo
deixado na mesa por um mais apressado?
Não te ponhas a arrolar
que na minha terra de dura gente
quem canta assim é o galo
e depois corre mal e vai parar a panela
Olha que o pequeno pardal
de tanto pipilar, saltar e voar
tal como o Homem que trata da terra
também precisa de se alimentar
e o teu bando crruu crruu ao mesmo tempo
mete respeito e afasta amedrontados
o bando do pardal
tal e qual como foi feito lá para os lados da beira
que cui cui para longe deste jardim

Dia Mundial da Justiça Social

Foto de Cody Pulliam na Unsplash

 Hoje a Organização das Nações Unidas (ONU) assinala o Dia Mundial da Justiça Social com o mote de "Apesar dos avanços, são evidenciadas injustiças persistentes, insegurança laboral difundida, altos índices de desigualdade e desintegração dos contratos sociais, agravados pelas crises globais. Assim, o reforço de instituições e políticas que promovam a justiça social é tido como uma urgência."

Quanto a mim, enquanto pessoa e autor é um dos temas com que me debato apaixonadamente, assim, associando a este dia, recordo aqui quatro poemas meus:





Todos eles retratam, em minha perspectiva, injustiças.

Linhas de Desejo©

Foto: Nuno Laginhas©


Tantas linhas que se cruzam
entre nossas mãos, nossos corpos
que definem contornos
descrevem o toque da seda
do fôlego suado, extasiado
A silhueta contornada
em linhas distintas
do dia para a noite
umas vezes repousam sobre a tela
lentas no desejo com vontade de provocar
outras são pinceladas com energia
descontroladas pelo prazer, irrequietas
Linhas a tinta de óleo
cheias de brilho, com mestria
longe de serem decalcadas
de tão originais que são
Linhas entrelaçadas, convictas
com cores de Verão, alegres
são linhas de pintura de uma paixão

Mãos Frias©

Foto: Nuno Laginhas©


Ainda de mãos frias
o Inverno junto ao Mondego enregela
e suas mãos entrelaçaram-se
a hora de viajar aproximava-se
só faltava um minuto 
os dedos entrelaçados
foram com força apertados
queriam aquele minuto
como se fosse mais um longo dia
e o frio do Mondego afirmou esse momento
em silêncio tremiam
um minuto bastou para a hipotermia
para enregelar o adeus
nem já o abraço os aquecia
hora de embarque
as mãos, ainda geladas, separaram-se
afastadas
começa a chover
o Inverno, junto ao Mondego, é assim
cruel, distante, frio, cheio de lágrimas

Um Banco no Jardim ©

Foto: Nuno Laginhas©


O banco do jardim, junto ao lago,
sente-se só
O lago tem peixes, nadam em grupos
as árvores mais próximas estão ocupadas
em florir para ficarem belas
e no Verão fazerem sombra a quem passa
O banco do jardim, como morte lenta,
está mutilado, sem utilidade
As pessoas passam e nem reparam
a vida é só para cada uma delas
como as árvores ocupadas em florir
Se o banco do jardim existisse
de certeza que não iria sorrir 
ele está só, sem razão para existir

À Boleia

Foto de Stormseeker na Unsplash


Pus-me junto à estrada
queria viajar
estendi o polegar da mão direita
a apontar para o céu
e um rude cartaz
na minha mão esquerda
virado para a estrada
"Destino: PARA LONGE"
E ali fiquei, parado
impaciente
nunca viajei para tão longe

Passavam os automóveis
às vezes um veículo de carga
mas o motorista, lá do alto da cabide
não me via
ou então zeloso para entregar o que carregava

Os automóveis, mais próximos de mim
eram ocupados por famílias tão sérias
Os mais jovens no banco traseiro
entretidos com ecrãs
A paisagem é só um verde
que se repete e passa em velocidade
distribuído entre árvores e os campos
com toques, às vezes forte, de cinzento
Mas já não olham
já não questionam quem sobrevoa
ou pula entre árvores e faz o ninho
quem se esconde em tocas
ou quem fica à espreita para se alimentar
o ecrã é o seu mundo de informação

À frente, do lado direito
no que chamam o lugar do morto
segue a mãe, séria, com ar pensativo
tem jantar para preparar
banhos para dar
e a roupa da viagem para lavar
Ou então distraída numa ilusão
deitada na erva fresca do campo
a ser acarinhada, acariciada e beijada
sem os filhos que olham para o ecrã
só ela e quem ela secretamente deseja

No lugar do condutor 
o pai, sério, concentrado
agarrado ao volante
sem desviar o olhar do caminho
e da viagem que tem para realizar
talvez, em estrada livre, sem trânsito
se imagine no Caribe
ou se for mais modesto, em Benidorm
Uma margarita na mão
música quente a soar nas colunas da piscina
e dança ele e mais duas beldades
que ainda nem trinta anos fizeram

Parece-me que no habitáculo do automóvel,
porque só posso imaginar,
reina o silêncio e o segredo

E eu ali estou, como disse,
parado, de polegar levantado
com desejo de viajar
"Destino: PARA LONGE"
Pára um automóvel  
com uma só pessoa e diz:
- Para longe não vou,
mas se quiseres podemos os dois viajar
Interessado pergunto:
- Para onde?
A que ela responde:
- Podemos ir até ao Porto,
caminhar entre São Bento,
a Cordoaria, os Clérigos
e ir até à Ribeira
E continua:
- Posso estacionar na Rua José Falcão
e daí caminhamos
ou então, se preferires,
posso ir contigo até ao Vale
o Vale do Mondego
e damos a mão
deitamo-nos na relva fresca,
e desejamos um carinho, uma carícia, um beijo
podemos ser cúmplices sob as estrelas
É o mais longe que te posso levar

Cidade Encerrada

  Imagem gerada por Adobe Firefly Fui questionando quem passava apressado para fazer o nem sei o quê o caminho de saída desta cidade procuro...