Tardo em...



Tenho dias que me distraem
encobertos sob névoa anestesiante
que mitiga todos os sentidos
e na bruma ficam diluídos
cada vez mais constante

A arte lograda da palavra sentida
na ocorrência constante em que treme a mão
escorraça a certeza para a dúvida
e este espaço é só mais um breu
com todas as palavras perdidas em borrão

Outros dia
aquele de muito curto instante
só quando o vento forte bafeja
são arrepio constante
e a caligrafia baila em elaborada coreografia

Nesses dias ordeno aos sentidos
que não é enxovalho sentir
e deixar este corpo exprimir
em gritos, choros, sorrisos ou mimos
esperando que outros dias sejam idos

E sem aviltar o que tenho para dizer
na abundância da fina força
que aparece, desaparece, e torna aparecer
no esconso mais refundido da expectativa
Ainda não estou para morrer!

Fogo



Não passo de um animal
Cabresto de um raio
cintilante de arbustos floridos
arvoredos e prados coloridos
Rapo tudo!

Cores divertidas de urzes
E as rochas que tocam o céu
Salto, desfaço, corro e atravesso
Não arrefeço na noite da Serra
E rapo tudo o que tenho pela frente.

Matos, cascalheiras e turfeiras
E tudo não me basta
Sou cabresto de um raio
da mão amaldiçoada
Atormento lobos e o gado descansado. 

O carvalho de negral dei-lhe razão
as bétulas de igual modo ficarão
De vermelho incandescente afungentei
os homens e mulheres, crianças amedrontei

Sou esse animal 
mal encarado sem querer saber
o cabresto incandescente
Sopro ventos e tormentos. 

Um Copo de Gin



É de corpo cravejado
desejos pesados
Amálgama de confusão
Um hiperactivo reboliço
Embrulhado
sem guarda suficiente
e a alma desprotegida
desguarnecida
Como outros dias perdida na ilusão
de um feitiço
o sonho sufocado
Cansado
d'este estio calor
que faz despertar irritadiço
dilui o efeito analgésico
Preso
sem percursos alongados
a vespertina vontade de um gin
feito espantalho
no meio de olores de alecrim
Sentidos perdidos
a visão que vagueia
desacompanhada
e refrescada a traqueia
Eliminado o reboliço do pensamento
arrodilhado
em inebriado momento
todo o feitiço até então desejado
desaparecido
Mente de novo adormecida
Mais um copo de gin
e termina o sonho de uma vida

Silêncio, Ruído, Sossego, Euforia

Photo by Jessica Furtney on Unsplash


O silêncio não cala
nem o rio lento sereno
tem a força de uma mordaça
para silenciar o tormento,
o impulso que domina a alma.

O ruído não anima
nem o mar apressado revoltado
tem o som suficiente para parar
e terminar a inquietude de pensar
que doce é o beijo então dado.

O sossego não acalma
nem a cela de clausura,
espaço entroncado de nenhuma liberdade,
consegue que a vontade fique segura
de lutar contra a saudade.

A euforia não inebria
no meio da psicadélica discoteca
com tanto estético movimento
não espanta no passo de dança
tudo o que alonga a distância.

Santo em Casa, ...

Photo by Alessio Zaccaria on Unsplash


O livre Santo
de face angelical
vestes imaculadas
engomadas
por mãos de serviçal
que faz com um sorriso banal

Santo que quer ser mimado
não usado
em casa facilita
na rua é agitado
e com outros Santos cogita
o desejo de seu membro habilitado

À noite de um raio alcoólico
criado
qual anjo qual beto mimado
fera sedenta
para montar
é ser lascivo apocalíptico

Santo enganador
violento, convencido
que o vigor da paixão
é satisfazer
o seu membro rígido.

Cidade Encerrada

  Imagem gerada por Adobe Firefly Fui questionando quem passava apressado para fazer o nem sei o quê o caminho de saída desta cidade procuro...