Distracção

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Existem muros em nosso reino
No instante de um só assalto
São facilmente transpostos
Fortificações de ameias desprotegidas
Distraídas em actos de alegoria

O pião que não pára de girar

Photo by giovanni cordioli on Unsplash


Quando pião gira desenha um mundo
Descreve na sua dança o relevo da serra
O desenfreado movimento citadino
Numa praça da aldeia
Junta petiz e graúdo
Na sua dança há quem assista
E outro que o lança
Vai o graúdo que o tenta apanhar
O rebelde girador
Foge o malandro, redopiador
Apanhar é que não te apanho 
És livre e desafiador
Volta a rodar e a dançar 
E um dia vou-te agarrar

Frio



Ruas, vielas, becos
cantos e recantos da cidade
Sem gritaria divertida
Espaços frios, abandonados

Os beirais desabitados
De floreiras esbatidas
Vazias, retratam o cinzento dos dias

O colorido perdido, cimentado
estanque, aquele frio jardim
Observa-se o banco vazio, sem alma
ou sobressalto de uma algazarra

A calçada encharcada, alagada
Estão, agora, árvores desprotegidas
despidas, intimidadas pelo frio dos dias
e do desprezo quem já não as mira

A Jornada

Photo by Mukuko Studio on Unsplash


Nesta cerrada neblina matinal
Que esconde o meu vale
Antigos dizem que na Primavera é normal

Perdi-me a ver de ti
Em passo desorientado de trilhos
Caminhos enviesados
Perdi-me, assim sem te ver

E quando tudo seria próximo
Foi no desejo que me perdi

Ao pé do Rio que desagua no Atlântico frio
Como fosse esta a grandeza dos dias
Sentia, que esse oceano era sítio de acalmia
O desaire de sonhos perdidos

No compasso dos dias, em longo percurso 
Sigo ao lado, desorientado, em caminho talhado
Empurrado pela brisa do norte
A fugir desta neblina matinal
Em raio de sol que a vem rasgar

E foi no desejo que me perdi
Quando tudo era estar perto de ti

(© Todos os direitos reservados)

Flôr



Flôr não é dor
É alegria, é cor
É desejo de agradar
Respeitar e amar

Flôr não é morte
Não tem que estar em lápide
Pedra fria de mármore
Que morrerá um dia
Sem alegrar ou sossegar
A forte dor de uma ausência

Flôr é Vida
Celebração
É um beijo apertado
Sentido
Um sorriso instantâneo

(© Todos os direitos reservados) 

Não tenhas Pressa

Photo by Nathan McBride on Unsplash


Tanta pressa
Para seres
Procurares
e entenderes
A urgência de crescer
Ultrapassares
De vencer

Recusar a inocência
De tanto olhar
Esse distante´
Disperso horizonte

Tanta pressa
Que te aleija
Desajeita a alegria
Sem ver a vida
Que tem contornos
de diamantes e safira

Tanta pressa
Que devia ser em
Pausa
e veres
Que és linda, fabulosa
Uma alegre criança

O Meu Jardim

Picture by Isabel, 11 anos "A árvore que ilumina a noite"


Neste espaço
que a largo passo
Caminho
Sacho
Tem muito do meu trabalho
Sentado fico
e em mim crio
Um jardim
de uma só árvore
e canteiros de jasmim

Aqui, aguardo a luminosidade
De ti

Em suaves brisas
zumbaria de abelha
Em mim desperta
mais um canteiro
Lírios e rosas

Jardim, que foi só meu
Iludido
com todo o jasmim
rosas e lírios
Só para mim

(© Todos os direitos reservados)

Quando Será Tempo

Autorretrato: Aguardo o tempo


É dissonante o tempo
perdido num olhar do horizonte
Aquele em que aguardo
Pelo tempo menos distante

É tempo de forma alterada
o que aguarda em mim
Quando será tempo sem fim
deste tempo de estar sem ti

(© Todos os direitos reservados)

As Ondas da Praia


No desassossego dos dias
Do turbilhão das palavras
E dos gestos
Repouso no vasto de uma visão
Do ondular ao retorno
De constante movimento
Sem o ruído da multidão
Desespero no sossego de voltar
Aos passos calmos
Sem ser já necessário olhar
Por um abraço

Sentei-me
E observei que sempre
Regressa
Ao ponto de partida
Renovada
Devolvendo a mensagem
Que se paro, tudo pára
E se daqui não vejo
Tão pouco posso esperar
Que algum dia
Tenha alguém para amar

(© Todos os direitos reservados)

Sonho



À janela pouco se descobre
Mesmo que afirmem convencidos
Desconfiem
Só se sonha, sonho pequeno 
É na viagem que se descobre 
As estórias, aventuras, alegrias 
Onde o sonho deixa de existir 
Para se afirmar
Esse sim
Empurra-nos para ver
Sentir
Desenvolver
Por tal, existem caminhos
Tantas alternativas 
Que da janela só sonhamos
E não descobrimos
Nas curvas contra curvas
Que se vai avançando 
Até um novo dia 
Que traga, esse sim
Com o sonho
Novos caminhos

A Razão [...]

Photo by Javier Allegue Barros on Unsplash


Se tiver que definir a razão,
prefiro então colori-la
do que gastar lápis a descrevê-la.
Não por ser difícil ou fácil,
só porque me deixaria mais alegre,
distraído da dificuldade
que é entender se tenho razão.

Em sete lápis pegaria,
sete cores alegres, divertidas.
Com o primeiro definia o início
e, em arco, marcaria o fim.
Os outros todos acompanhariam
Juntinhos,
em arco, do início até ao fim.

Assim, num ápice, pintava o arco-íris.
Daqui para lá e de lá para cá.

Estranho, que uma e outra vez olhava,
já sem perceber
porque só via o princípio e seu fim
sem nunca o conseguir alcançar.

Diz-me, então, a Razão, por fim,
em segredo:
- Não desistas de procurar
e um dia, sem esperares,
o meu princípio vais encontrar.

(© Todos os direitos reservados)

O Rasgo do Revoltado

Photo by Nsey Benajah on Unsplash


Ignóbil espaço apertado
Escuro, medonho
Irado
Pasme-se, tristonho
Ansioso
De ácido nos seu veios
Que queima
Transforma o sossego
Em ímpeto de rasgo
Grito de libertinagem
Na explosão atómica
Devastadora
Como mão de Deus
Em purificar a alarvidade
Oportunista
Essas falsas preces
De quem só se curva
Quando o santo passa

Do silêncio
Ao ruído ensurdecedor
Esguicho  de veneno
Alterado
Teimoso e revoltado
Em estrondoso movimento
No espaço apertado
Na tóxica atmosfera
Se perde
No quotidiano dos dias

Inspira
Expira
Em ritmo viciante
Sem alcançar a venda
De visão tão turva
É em diversos sentido
O disparo da arma
Descontrolo
Do rasgo desmedido
Em grito
Perdido tarde no tempo

(© Todos os direitos reservados)

Cidade Encerrada

  Imagem gerada por Adobe Firefly Fui questionando quem passava apressado para fazer o nem sei o quê o caminho de saída desta cidade procuro...