Trabalho cansado do Doutor Amado



Com a dependência que se vive
não há dia que não se sacrifique

De instante a instantes de mão estendida

Antes que servir à mesa, que é vida perdida

Que vergonha de laborar não vem remediar
Doutor que não verga não tem comida na panela 

Antes a humildade do cu do Santo Beijar
Que trabalhar com vigor faz suar

À mesa servido por pobre iludido

Rapa travessa, seca adega

Todo o trabalho é honrado, 
até o que é alcançado com um abraço 

Só não trabalha a quem as costas dói
de repetida vénia para o cu do Santo Beijar

O pobre não se queixa
que nem tempo tem para o Santo cumprimentar

Trabalho cansado
Do Doutor Amado
Que todos os dias vai rezar
Ao Santo que está no altar

Tardo em...



Tenho dias que me distraem
encobertos sob névoa anestesiante
que mitiga todos os sentidos
e na bruma ficam diluídos
cada vez mais constante

A arte lograda da palavra sentida
na ocorrência constante em que treme a mão
escorraça a certeza para a dúvida
e este espaço é só mais um breu
com todas as palavras perdidas em borrão

Outros dia
aquele de muito curto instante
só quando o vento forte bafeja
são arrepio constante
e a caligrafia baila em elaborada coreografia

Nesses dias ordeno aos sentidos
que não é enxovalho sentir
e deixar este corpo exprimir
em gritos, choros, sorrisos ou mimos
esperando que outros dias sejam idos

E sem aviltar o que tenho para dizer
na abundância da fina força
que aparece, desaparece, e torna aparecer
no esconso mais refundido da expectativa
Ainda não estou para morrer!

Fogo



Não passo de um animal
Cabresto de um raio
cintilante de arbustos floridos
arvoredos e prados coloridos
Rapo tudo!

Cores divertidas de urzes
E as rochas que tocam o céu
Salto, desfaço, corro e atravesso
Não arrefeço na noite da Serra
E rapo tudo o que tenho pela frente.

Matos, cascalheiras e turfeiras
E tudo não me basta
Sou cabresto de um raio
da mão amaldiçoada
Atormento lobos e o gado descansado. 

O carvalho de negral dei-lhe razão
as bétulas de igual modo ficarão
De vermelho incandescente afungentei
os homens e mulheres, crianças amedrontei

Sou esse animal 
mal encarado sem querer saber
o cabresto incandescente
Sopro ventos e tormentos. 

Um Copo de Gin



É de corpo cravejado
desejos pesados
Amálgama de confusão
Um hiperactivo reboliço
Embrulhado
sem guarda suficiente
e a alma desprotegida
desguarnecida
Como outros dias perdida na ilusão
de um feitiço
o sonho sufocado
Cansado
d'este estio calor
que faz despertar irritadiço
dilui o efeito analgésico
Preso
sem percursos alongados
a vespertina vontade de um gin
feito espantalho
no meio de olores de alecrim
Sentidos perdidos
a visão que vagueia
desacompanhada
e refrescada a traqueia
Eliminado o reboliço do pensamento
arrodilhado
em inebriado momento
todo o feitiço até então desejado
desaparecido
Mente de novo adormecida
Mais um copo de gin
e termina o sonho de uma vida

Silêncio, Ruído, Sossego, Euforia

Photo by Jessica Furtney on Unsplash


O silêncio não cala
nem o rio lento sereno
tem a força de uma mordaça
para silenciar o tormento,
o impulso que domina a alma.

O ruído não anima
nem o mar apressado revoltado
tem o som suficiente para parar
e terminar a inquietude de pensar
que doce é o beijo então dado.

O sossego não acalma
nem a cela de clausura,
espaço entroncado de nenhuma liberdade,
consegue que a vontade fique segura
de lutar contra a saudade.

A euforia não inebria
no meio da psicadélica discoteca
com tanto estético movimento
não espanta no passo de dança
tudo o que alonga a distância.

Santo em Casa, ...

Photo by Alessio Zaccaria on Unsplash


O livre Santo
de face angelical
vestes imaculadas
engomadas
por mãos de serviçal
que faz com um sorriso banal

Santo que quer ser mimado
não usado
em casa facilita
na rua é agitado
e com outros Santos cogita
o desejo de seu membro habilitado

À noite de um raio alcoólico
criado
qual anjo qual beto mimado
fera sedenta
para montar
é ser lascivo apocalíptico

Santo enganador
violento, convencido
que o vigor da paixão
é satisfazer
o seu membro rígido.

Nuvens

Photo by Nikolas Noonan on Unsplash


Fim de tarde deste Verão,
na calma junto do manto cristalizado
estendi a velha manta de retalhos
e fiquei sossegado, a olhar, deitado
As nuvens a tocarem-se
como um entrelaçar das mãos
em toque suave de sedução
A aproximação dos seus lábios
carícia com calma, com tempo
e as mãos que voltam a tocar
juntas, como curiosa exploração
O beijo que agora foge e se funde
perdido no relevo dos seus peitos
Aumenta a temperatura
esse toque com tempo
Aguarda-se a humidade
sem revolta mas tremendo
As nuvens como duas pessoas apaixonadas
unidas, a provocada extasiada explosão

Florzinha



Que mal tem admirar uma flor
e querer habitar nesse jardim
ver cores de arco-íris compostas
sentir em cada uma o suave odor
de cada pétala que embeleza esse manequim?

Que imagem de mim transportas
quando por mim passas e não falas
enches o peito e andar musculado
e te atreves nesse ar satisfeito 
dirigir duras balas
vil arma carregada de preconceito?

Pois bem um jardim é beleza
é o lindo ventre de todas as mulheres 
o seu corpo de pureza
como ordenados malmequeres
que só desejam ter amor de alguém

E agora que imagem tens de mim
que vil ideia construíste
só porque admiro e não piso
cada flor do jardim? 

Os Outros da Vida



O que faz o hábito de nós 
Seres vigilantes
Acostumados
A uma mesa do café
Ao banco de um jardim
Procuradores de bons costumes
Rigorosos desse firmamento
Presos no mesmo pensamento
Somos a mínima existência
Como câmaras de vigilância
Ofuscados
Nas serras estéreis
E nos campos abandonados
Uma vez ou outra até podemos imaginar
Acabando por habitar
Sem coragem para aventurar
A vida de todos os outros
Os atrevidos
Sem reflexo em nós 

Hoje (não para mim)



Teima o dia em despertar
Hoje que não é dia
Nem momento de acordar
E o ontem que não regressa
Que ontem (se não me engano)
As folhas das árvores dançavam
Com os ritmos quentes da brisa de verão
Os pássaros pulavam
de ramo em ramo
Um e outro, sem pressa
Como se fossem brincadeiras de criança
Mas hoje (o dia que não quero)
Tenho as mãos frias
O corpo pesado, imobilizado,
E o olhar fixado
Nas rosas (que tanto gostas)
Que são só pétalas desiludidas
Queimadas
Nesta terra que já não me aquece
Que não me move
Para que o hoje tenha aparecido
E aqui tenha ficado
No ontem perdido
Logo hoje que não devia ter existido

Na Cidade que Resido



Nesta cidade
Farta, Forte, Fria, Fiel e Formosa
Passa longe um rio
Escondido entre montes e muros
Um rio que farta
Tanto olival, hortas e gado
Crianças que nele refrescam
Sonhos para outros destinos
Montes de fortaleza
E muros de contenção
De toda a criação que esteja para vir
Ou de toda que deseja progredir
Frio de ideias
Cópia de outros que estão longe
Para os lados do Atlântico
O santo que agradece
A fidelidade de quem para ele sorri
Mãos abertas costas curvadas
O rio que lava
Poeiras e detritos
Da tão encapuçada formosura 
É esta cidade guardada
Sob o cajado do pastor das estrelas
Tão bem conservada
E amada no tempo da Ribeirinha

Enxada



Sem-ti
Mãos rudes, calejadas 
Gretadas
A toque do cabo da enxada
Terra seca sem ser regada
Cavar, semear
Amainar
O tempo de germinar 
Colher
Sem enxada em minha mão 
Ou o suor que escorre 
Escreveria a suave toque 
Mas de alma pobre 
Sem ter como alimentar
Este fraco escrever

Sexta-feira Sem...


As sextas-feiras são serenas
Silenciosas
Depois das dezoito horas
Ao contrário dos astronauras
da folia e bebida 
Depois das dezoito sossego
Encubro todos os meus desejos
sob mantas
Na penumbra de um sonho
paro o tempo 
Descrevo-te, de novo 
lembrado do quente aconchego 
A minha máquina do tempo
Regresso, corrijo, avanço 
Ver as árvores a florirem
as folhas a caírem 
Alcançar 
A nossa esplanada
de novo livre
Só para nós. 

Cartas de Amor

Photo by Ire Photocreative on Unsplash


Nem que seja amarrotado ou queimado
o intento de amar e de o querer afirmar
fica mesmo assim o desabafo em folha registado
Disfarçado do medo de falar e protegido do ouvir
E mesmo que se perca nos ermos montes da vida
as cartas de amor são escritas guiadas
por quem reside no coração do remetente
que dita as palavras tão sentidas
Palavras que despertam o doce em mil sabores
ou num amargo salgado de uma futura dor
E disso somos, agora, tão cautelosos
preocupados com tanta hipertensão
que abandonamos de vez, receosos
de escrever a elegante carta de amor

Recordo-te



Ali em cima
tão longe
onde habitam os anjos
Mais um
asas douradas
aladas
Saudades eternas
habitado
o meu Olimpo 
este palácio 
mil festas haverá
contigo
Um brinde
do néctar rubro
com os Deuses
sozinho não estou
por cá 
Saúdo-te 
ergo o copo
A Ti, meu anjo
mais um. 

Noite de Verão



Deito-me, envolto pela tormenta do lençol
como ondas que voltam e revoltam
não param
Estas noites de Verão na fornalha do Inferno 
E... Provavelmente mereço!
Despertar a arder
sem ser este o meu sofrer
Entre o pânico de procurar o ar
Perguntar 
Porque foste, assim tão breve?
Sem aguardar
Agora que os Demónios e Arcanjos bailam
Juntos! 
que o Céu e o Inferno se uniram
As confidências já não são segredo
perdidas no esperneio de voltas e mil voltas
Que nesta tormenta de calor
já não mais posso perguntar 
Porque te foste!

Porra!



Às vezes, muitas vezes grito Porra!
e sem pudor também choro
Não fui germinado em terra negra
nos altos fornos do Diabo
Nem tolhido em terra de celibato
nas galerias ancestrais da castidade

Grito quando me irrito
À revelia do sossego instituído
Do pão desperdiçado, negado a quem tem fome
Do trabalho exagerado exigido ao coitado
Tudo me irrita, Porra!
Quando se tropeça na calçada percorrida
nem um braço, abraço, um apoio
como que sem dinheiro não fosse vida
Quando se fala e ouvem mais as paredes 
essas que não julgam nem apontam o dedo

Também choro quando vejo sofrer 
A dor de uma criança que não tem pão para comer
um brinquedo para rir, umas sapatilhas para correr 
O pai e a mãe, de sol a sol, negros de trabalho exagerado 
não calam o choro da criança 
que nem assim baixam os braços ou perdem a esperança 
Choro e não tenho vergonha 
Quando a caridade é efemeridade para a fama
de quem exige trabalho forçado mal pago
Quando o chicote esvoaça e mata

Grito e choro da diferença imposta
Da traidora falsidade de agradar
Da sonegada liberdade para brilhar
e da falta de oportunidade para estar e ser 
De perder para a justiça do rico
sem árbitro livre ou que não está adormecido
Grito Porra! e escorrem lágrimas
De príncipes e princesas fabricados
instruídos para fugirem da criança que não tem pão 
e um brinquedo dourado na mão 

E Porra!
Choro!
Quando a mãe que adoece e médico não tem
no sorriso belo de ouro engana a dor
na arena de leões é o único gladiador
e de pé, firme, grita: está tudo bem! 

Enchanté (de toi)

Photo by Natalia Sobolivska on Unsplash


Encantado
Já estive aí
Quando sorriste para mim

Encanta-me outra vez
(só desta vez)
Para voltar a sonhar

Encanta-me
Que mais nada tenho
Senão só o teu sorriso

Encanta-me
(teu encanto tão genuíno)
Que me faz perder o meu sentido

E ser encantado
Não é ser iludido
Como se isso fosse possível nesse teu autêntico jeito

Encanta-me
(só desta vez - sorri mais uma vez para mim)
Só mais uma vez

Digo-te o Adeus que não Quero



Distraí-me quando sorriste
Perdi-me no teu jeito meigo
Nas melodias das tuas aventuras 
E depois de sossegar o entusiasmo 
Fui dominado, sem eu querer, pelo silêncio 
Fechado, só, na esquadria da esplanada 

E tudo o que queria era a ti
Entre uma aventura ou um só passeio
Perdi-me
No meu desejo altaneiro 
Entre estradas e caminhos 
Todas as curvas e contra curvas 
Nos cruzamentos das ruas

Dos encontros aos desencontros 
Dos segundos que ficaram dias
Nesta esplanada fechada
Deixei-te ir
Em meu envergonhado sorrir
Aos teus lugares distantes
Para tu seres feliz. 

Prazer

Autor: desconhecido


O degelo
A lenta fusão 
Do estio prazer e um olhar revirado
A emoção torneada
O demônio exorcizado
Soa a corneta do Anjo carnal
Na torre da cúpula dourada
A volúpia da pele nua
Excitada
O suor em toque
No veludo humedecido
Suado
Aberta a arca dos segredos
Atrevidos
Sob as estrelas envergonhadas
E sarcedotisas indignadas
O silêncio rasgado
No atlântido jardim suspenso
A pureza perdida
O paraíso encontrado

Velho Lobo

Photo by Tom Pottiger on Unsplash


Ouve-se o uivo do velho lobo na serra
Calaram-se as corujas
As fuinhas resguardam-se nas tocas
É o chamamento
O corpo do velho repousado
Iluminado da fenestra pelo luar
O canto da cegonha ouve-se pela manhã

O velho lobo recolhido pela alcateia
No sopé da montanha humedecido
Do choro das nuvens deste Inverno
Pairam os cristais divinais da pureza
E afastadas as andorinhas e os melros
É a renovação da alcateia
O silêncio do uivo do velho lobo
Inicia-se uma nova vida

Soltar



Quero descalçar-me!
Tirar estes rudes sapatos
(gastos)
Livrar-me deste sufoco
Libertar-me!
Rasgar a camisa
(de força)
E refrescar-me!
Logo de manhã pela fresca
sentir nos pés a erva molhada
a terra macia
Soltar-me!
Sem mais, sem olhar atrás
e correr
Descalço, despido
da força de te amar
(esta intensidade tão atada)
Procurar novos destinos
desatar os nós apertados
libertar o coração no peito cingido
E um dia voltar
afirmando
Agora, descalço, sou feliz!

Mundo Suspenso

Photo by Yukon Haughton on Unsplash


Neste momento o meu pequeno espaço
parece o mundo
e tanta casa devastada
bombardeada
e eu livre, divertindo-me
Escola encerradas
crianças encarceradas
no tormento da explosão
não há tempo para a brincadeira
perdeu-se a jovial ilusão
Nem pão, vinho ou água
ou cama para repousar
e eu livre, tenho tempo para sonhar
Amigos perdidos
amantes desaparecidos
entre bombas e mísseis
procuram a liberdade
No curto espaço refugiado
a morte é visita e companheira
e eu no meu mundo desencarcerado
abraço a felicidade, canto e danço

Beira Rio



Sentei-me à beira rio
com o mar ainda distante
Crianças e pais em terna algazarra
É o Verão na serra
para quem o mar ainda não está
nos dias remediados
ao alcance
Água fresca do rio ainda jovem
e as crianças que correm
Vai um pulo, um mergulho
É um sossego
que o rio não tem ondas
e o mar, ainda distante
deixa os pais na sombra dos sonhos
Talvez uma viagem ou excursão
quando da horta não é preciso tratar
é toda uma vida, sempre a trabalhar
E à beira rio contemplei
todas as conversas sem delírio
o som apaziguador do rio que corre
que um dia encontrará
esse mar distante

Dias Comigo



Queres tomar café comigo?
Estou aqui sozinho.
Nesta esplanada ou em outra mais ao lado. 

Já há poucas mesas livres 

Não interessa a quantidade de amigos
E todos os telefonemas perdidos
A efemeridade dos segundos contados
O novo isolamento auto-medicado

Mesmo com outras mesas ocupadas

Mantenho-me isolado
Imaginando a vida de quem passa
Em apneia sôfrega a olhar a rua

Nem me apercebo de novas saudações 

Tenho como pedido só um café 
O telefone em silêncio 
Na companhia de um cigarro
E na esplanada calado fico. 

Amor... Viver

Photo by Matthew Henry on Unsplash


O Amor
Atrevido despudor
Fantasia de nudez
Embriagado
Por Vénus e Baco
É salteador
Saltador
Assaltador
E o que mais pode acabar
Em dor
É campo despido
Desprotegido
Incerto e choroso
Como dias de Abril
É ougado
Insaciado
Com todo o início apressado
É vento, ventania
Que embala e abala
Mas é o Amor!
Destemido
Sincero e nada arrependido
E sem ele não sei viver.

Amargura



Lágrimas que escorrem entre rugas,
esculpidas nas escarpas dos dias,
são elas as cascatas em Inverno.
A intransigência de uma desilusão
anotada a tinta permanente neste caderno.

A gazela que foge afoita do leão,
em corrida desenfreada de sobrevivência,
nesta savana extensa e estéril
tão longa que não acalma a existência.

Uma cotovia no topo de uma árvore.
de tantos voos e cantos entoados
nas manhãs quentes e alegres,
por fim cai, entre ramos escorre,
e os que reparam são tão poucos.

No fim o que fica registado no palato,
o forte sabor severo de um limão
sem um adocicado estrato
de uma paixão. 

Sonhar-te

Photo by Benjamin Davies on Unsplash

Permite-me estar
Refrescar a mente
Quando as noites são quentes
Enquanto o corpo repousa
Trazer o aconchego
Da erva fresca sob a oliveira
E sem imaginar
Apontar
Eis a constelação
Que guarda e aguarda
Todos os segredos
Os encantos e desencantos
Enquanto a mente refresca
Se liberta
Entre os ramos da oliveira
E em mim sonhar-te
Enquanto a noite ainda é quente
E a mente não desaponta
Acreditar
Que cada estrela
É o amor que não desvanece
Nesta cama de erva fresca
Encerrar os dias
Elevá-los ao céu
Para mais uma constelação surgir
A intensidade
Do teu corpo repousar
Num sonho meu
Sentir o teu calor
Quando me tocaste
E ao ouvido segredaste
Desejo-te
Então, permite-me... Sonhar-te

Um Beijo Lento

Escultura de Auguste Rodin (1892)


Dar um beijo
um beijo lento
com tempo
o beijo que arrepia
E mil beijos em ti
exploradores
quentes e lentos
e o momento torna-se infinito
Mil beijos não bastam
no arrepio que reclama
o toque
a língua que desliza
Sentir cada milímetro
o teu relevo suado
olhos fechados
para descobrir
Ouvir
teus gemidos de calor
dois corpos ajustados
Abraçar
afagar os cabelos escorridos
teu corpo torcido
Um grito
um beijo lento
e, por fim, o silêncio

Corpo Cansado



Dias cansados pela solidão
De sol a sol entalhado no corpo
Esses dias só de enxada na mão
Vem o interlúdio dos dias
O descanso que encharca as veias

Perde-se um beijo e um abraço
Nem um desejo ou grito de prazer
Tudo suspenso num pequeno espaço
Uma só manta sobre o peito
O sonho em veludo negro sem satisfazer

Encerra no silêncio toda a perdida paixão
Em longos e sinuosos caminhos percorridos
Gravados em relevo nessa face ausente
Ficam só as memórias de tempos idos
E as mãos negras de quem vai carregar o caixão

Tocar o Céu



Quero tocar o céu
Sentir o azul do mar
Entre os dedos meus
Eu quero tocar no céu
Lambuzar-me em algodão doce
Como uma criança
Pura em esperança
Eu quero tocar o céu
Sentir a suave brisa
A refrescar o meu corpo
Eu quero tocar o céu
Voar e nadar com os anjos
E rir, rir descomprometido
Num festim de alimento e folia
Eu quero tocar o céu
Guardar o teu bem estar
Estar por aí, por ti
Acompanhar-te
Eu quero tocar o céu
Digo-o até ao infinito dos desejos
A correr em minhas veias
Comprar os sapatos celestiais
E pôr-me a caminhar
Percorrer todo o vale
e subir a montanha
Até tocar o céu

Festa na Aldeia

Photo by Louis. K on Unsplash


As comadres alcoviteiam no largo
Saias negras e blusas beges
Os compadres surram em bombos
Fato domingueiro e bota engraxada
É festa na aldeia
O padre de sotaina engomada
33 botões de prata e outros 5 de ouro
Vai louvar a santa em procissão
É festa na aldeia
Os foguetes malditos despertadores
Jovens cansados de cerveja e traçadinho
A filarmónica da freguesia ao lado
Marca compasso lento ao andor pesado
É festa na aldeia
arrematação da chouriça e presunto
Quem tem abre o cordão à bolsa
Canta o organista alegrado
Homens no bar e mulheres a bailar
É a festa na aldeia

Nunca...



É uma concha vazia
Abandonada

É a despedida indesejada
A recusa sem aventura

É uma forte mentira
Sem saida do abismo

É a rápida escapatória

O engano de quem não se convence
Que nunca em nunca há verdade acente

Escrita a seu Tempo


A escrita é lenta
Demora o seu tempo
Em encontrar entusiasmo
Num fio de sentimento

Outras vezes distrai-se
No encanto
Do ondular do mar
Dos sonhos imensos

Mas também é esquecida
No pensamento 
De um delicado abraço
E de um sorriso teu

(Re)Encontro, Na Esplanada



A Primavera sempre vem
(é uma verdade comum)
mesmo que uma árvore decida hibernar
e não mais voltar
haverá sempre uma flor a seu lado
a florir como se dissesse
entre as suas rosadas pétalas
"A vida é para ser a sorrir".
E nesta verdade tão comum
esta máxima que alimenta toda a esperança
ele decidiu que era tempo de avançar
começou a caminhar
Embora todo o seu ser tremia
para a (re)conhecer.
Ele sabia
"Que mulher bonita, genuína alegria",
abismado no sorriso florido dela
pensou "esta é a minha primavera".
E não quis só um café
ou dois dedos de banal conversa
Quis perpetuar por horas inacabadas
em ela, a sua alegria.
Desejou acabar com o Outono e o Inverno,
não voltar a vaguear entre a chuva e o frio
Só abraçar e cuidar
essa flor que ao lado dele floriu.

Um Café, Na Esplanada



Era só um café, naquela manhã.
Nem frio, nem calor,
era a Primavera nesse dia
trazida pelo suave canto da cotovia.
Se fosse algo mais, ele não teria ido, 
este convite não teria existido.
Há tantos recantos onde se podia refugiar
sem ter que lhe dizer:
"Tão bom que é te amar".
Era só um café, distraído
por um cigarro e riso inquieto,
não mais do que isso, que isso bastava.
Foi nisso que se convenceu,
que a razão ditava:
o forçado sossego artificial.
Essa manhã, só por breve instante, olhar,
que era só contemplar o sorriso,
dela a felicidade em voo de liberdade.
Para ele, percurso penoso, aflito,
feito num instante
empurrado pelo coração:
"Se for já, é só um café, e não me prendo em ilusão".
Dois beijos e um olá, tão fácil que ia ser.
Acender um cigarro: "Tudo bem? Que bom te ver".
Depois? Seria só estar.
E o sorriso dela, a luz naquela Primavera,
acabou por confessar:
"Até um dia, adeus".

Um Dia, Na Esplanada



"Nunca mais te falarei!"
Disse - ele - todo convencido em certeza fácil,
entre um refresco e a sombra agradável
numa esplanada à beira do rio.
Parecia - a ele - um discurso ágil,
adequado ao calor sentido e o momento inevitável,
a facilidade dessas três palavras
tão simples e imediatas da mensagem
que não podiam resultar em engano.
Estava - ele - convencido que tinha essa blindagem.
Cedo apercebeu-se, a bebida aqueceu
e a ausência, prematura, do calor,
esse discurso ágil era mentira indesejada,
arrastada, da esplanada, pelo rio em corrente.
Quando - ele - da sua ausência se fez sentir
e que a razão no engano o fez cair,
nunca mais voltou à esplanada,
nem a esse rio.
Para evitar ouvir:
"Nunca mais te falarei".

Abstinência [Morte]



Certo dia acordei cego
- Grito!
De louvor a esta dádiva.
Se não vejo, não sinto,
e deixo-me estar
sem ambicionar
que ver é viver.
Quando de motivos já não abraço
e permito-me agora ao descanso
de tanto que quis em velha vida
Até agora.
Que me embriaguei
com tanta paixão.
Assolam os tremores
de abstinência.
São todas as dores
de terrível ausência.
A privação!
Ver é sentir
e eu que tanto quero,
esse sorriso sentido,
mas...
Estas forças já esgotadas.
Quero ir,
deitar e descansar,
Apagar!
Onde sei que já não posso estar.

De[]Pressão



No vácuo do pensamento em nós
Atados laços emaranhados
Essas horas áridas em deserto sem oásis
Na exaustão do caminho entre dunas enormes
Perdidos em desencontros dos nossos dias
Desenham-se ilusões em grãos de areia
E perdem-se promessas entoadas
Fica a sede por saciar
Em passos cada vez mais pesados

Pai Nosso

Photo by Alicia Quan on Unsplash


Rezemos um Pai Nosso
Os mais crentes uma Avé Maria
Que roga por nós pecadores
Exorcizemos os nossos pecados
E esquecemos o resto dos dias

Ajoelhemo-nos em penitência
Recebendo a consagrada hóstia
Entoamos a Aleluia
O cântico abençoado
E esquecemos o resto dos dias

Coloquemos o cilício
Em oferenda de conversão
Pai Nosso perdoa nossas ofensas
Nós a quem nos tem ofendido
E esquecemos o resto dos dias

Sigamos em procissão
Os passos de Jesus Cristo pesarosos
Visitemos os nossos entes mortos
Em campa fria só de ossos
E esquecemos o resto dos dias

Maio



Acordou radiosa esta sexta-feira
Maio verde e florido
Um coro de pássaros em canto de poesia
Esta manhã verdadeira
Não se esconde entre mantos
Tocam os grilos a primaveril sinfonia
Que um abraço é refresco para o dia
E um beijo a minha alegria

Invadem as ruas aromas dos jardins
Dos verdes campos e afins
Trazidos em toques de misteriosas brisas
Da ausência que me faz delirar
Um abraço, um beijo, o conforto da tua presença

Fardo

Photo by Alexander Krivitskiy on Unsplash


Se eu pudesse falar
Dizer
O que vai em mim
Sem que seja pesado fardo
Para ti
Soltar esta vaidade
De estar apaixonado
Libertar
Dessa morfina
Da distância do sonho
Mas que não seja fardo
Para ti
Carrego eu
Só eu
Auxiliado por um receio
Todos os gritos
De desejo
Dizer
Só para mim
Acorrenta-me, em Mosteiro
O silêncio
O delírio da ilusão
E eu combato
Este exército miudinho
Desde as entranhas
Dominadas
E não te tiro de mim
Calado fico
Para ti
O fardo seja meu
Porque assim eu quis 

Trepadeira

Photo by OvalDreamX on Unsplash


Trepadeira  que entrelaça
numa confusão imperfeita
trepa em vigorosidade apertada
paredes, escaleiras e troncos
chegando ao topo não se detém
entrelaça novo destino
esta trepadeira que entrelaça
e de mim fez novo inquilino

O Búzio e o Mar



Mais um dia
Enumera-se até ao infinito
O tempo inteiro da criação
De um oceano de perder de vista
A viagem que nunca mais termina 

Mais um dia
Em que os passos são nulos sem ideal
Guardados no refúgio de um búzio
Na imensidão do areal
Protegido na sombra de uma arriba

Mais um dia
Em que as gaivotas se ouvem ao longe
Numa algazarra de alegria 
Entretidas pelo tanto alimento do oceano
Distantes da árida arriba

Mais um dia
E já vão sendo muitos
Que neste areal só esse búzio habitado
Encostado na arriba isolado
Solta as gotas salgadas desse oceano

Mais um dia
E não basta
Em que as marés, ora perto, ora longe
Não afagam o triste búzio
Que em desespero de solidão 
Imita o som hipnotizante do mar
Na certeza que alguém o venha pegar. 

Cidade Encerrada

  Imagem gerada por Adobe Firefly Fui questionando quem passava apressado para fazer o nem sei o quê o caminho de saída desta cidade procuro...